quarta-feira, 27 de maio de 2026

Abelhas impulsionam atividades além da produção de pólen em Ceará-Mirim

O casal Maria Lucineide, 39, e José Ranulfo, 44, dedica-se à produção de pólen e também aposta no artesanato como fonte de renda. Foto: Alex Régis

A criação de abelhas para produção de pólen tem se tornado uma fonte de renda que ganha cada vez mais espaço no assentamento Projeto Santa Águeda II, em Ceará-Mirim. Produzido por 13 associados da comunidade, o item é vendido para diversos estados do País e deve ser exportado assim que o grupo conseguir a certificação junto aos órgãos competentes. Antes disso, no entanto, a apicultura já mostra como é importante para a região, beneficiando outras culturas com a polinização das abelhas e proporcionando renda por meio de atividades como artesanato.

Um exemplo desse novo momento para a economia é o casal José Ranulfo, de 44 anos, e Maria Lucineide, de 39. Ranulfo decidiu dedicar-se efetivamente à produção de pólen há um ano. A meta principal, por enquanto, é ampliar a quantidade de enxames. “Comecei com cinco caixas. Hoje são 25. Minha produção é pequena, de 10 kg a 15 kg por mês. Por isso, estou focado em chegar a 100 caixas até o final do ano”, diz o produtor, criador da marca Eliasafe.

Ranulfo é irmão de Alexandre Oliveira, presidente da Associação de Apicultores e Apicultoras da Agricultura Familiar do Projeto Santa Águeda II (Apafase). A exemplo de Alexandre, José Ranulfo largou o emprego que tinha como operador de caldeira para investir na produção de pólen.

Com os esforços neste primeiro momento voltados à ampliação de enxames, ele e a esposa apostam no artesanato para garantir renda, agregando a criação dos produtos à apicultura. Para isso, eles usam a abelha como principal tema de decoração das peças que fabricam ou personalizam.

Maria Lucineide, que além de apicultora é artesã, é quem pensa, desenha, pinta e personaliza cada produto. “A gente faz sousplat (base colocada abaixo do prato em decorações de mesa), shortinho, blusas, tops, chaveiros e personalização de panos de prato, com técnicas de crochê. Nós usamos outros temas também, mas, com a produção de pólen, temos nos dedicado bastante à criação de peças com abelhinhas”, conta a artesã.

O preço de cada peça varia. O pano de prato, por exemplo, é vendido a R$ 17, enquanto o chaveiro sai por R$ 12. “A gente vende bastante em feiras e exposições. Já o pólen, apesar de ser uma produção pequena, vai para outros estados do país”, conta José Ranulfo.

“Então, antes era assim: de vez em quando, ia no mato pegar o mel e vendia. Minha vontade de investir na apicultura começou quando vi como Alexandre estava conseguindo expandir, trabalhar com essa atividade. Há um ano, resolvi abraçar a produção de pólen pra valer”, complementa o apicultor.

Alexandre Oliveira (Apafase) quer fortalecer a produção de pólen

Aumento de produtividade

Marcado por culturas sazonais, como a castanha, a mandioca e outras, o assentamento Santa Águeda II tem sido beneficiado com a melhora da produtividade em geral graças às abelhas criadas nos apiários próximos. “Estudos mostram que as abelhas conseguem melhorar em 70% a produção de uma área, graças à polinização. Aqui tem acontecido exatamente isso. Os agricultores estão mais cuidadosos em relação ao uso de agrotóxico e não precisam usar adubo para fertilizar as culturas”, afirma Jailson Medeiros, que trabalha para um dos apicultores do Projeto Santa Águeda.

Medeiros já teve apiários, mas optou por se desfazer deles e agora vai retomá-los com vista à produção de pólen. “Em junho, iniciarei meu projeto de pólen, com 30 colmeias”, fala.

O presidente da Apafase, Alexandre Oliveira, disse que tem atuado para expandir a fabricação de pólen na comunidade, tendo em vista a alta procura pelo item no mercado. “A gente quer capacitar 50 pessoas para a produção, porque eu acredito que ela pode ser um agente de geração de emprego também”, comenta.

Um dos processos que mais demandam mão de obra é o beneficiamento. Atualmente, além de um sócio, Alexandre conta com a ajuda da irmã para esse processo. Com a perspectiva de aumentar a produção, ele sabe que será necessário contratar mais gente para trabalhar. “Aqui tudo é feito de forma artesanal. Então, além de mais pessoas para o manejo do apiário, vamos precisar de pelo menos mais cinco mulheres para beneficiar o pólen”, projeta Alexandre.

O beneficiamento é realizado na casa dos próprios produtores. Após a coleta, o pólen é colocado dentro de um balde específico e levado ao freezer, onde fica em congelamento por 24 horas. Em seguida, a matéria-prima vai para a geladeira e depois para uma estufa, onde permanece por até oito horas, a fim de retirar umidade. Terminada a exposição, o pólen vai para uma máquina chamada soprador, onde os resíduos são retirados. Na sequência, os grãos são catados manualmente para que resíduos ainda menores também sejam retirados.

“Somente após isso, o produto é envasado e está pronto para comercialização”, descreve Alexandre. O pólen é vendido a R$ 360/quilo (10 gramas custam R$ 36) para o varejo, mas a maior parte é comercializada no atacado, para empresas, a um preço médio de R$ 120/kg. Por ora, a perspectiva dos associadas passa também por conseguir certificação para que o pólen do Vale do Ceará-Mirim siga direto para o exterior, beneficiando ainda mais os produtores locais. “Hoje, nosso pólen já chega em outros países, mas isso ocorre por meio de empresas que compram o produto e mandam lá para fora”, conta Alexandre Oliveira.

Jailson Medeiros vai iniciar a produção de pólen em junho

Tribuna do Norte

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