segunda-feira, 30 de março de 2026

Trump diz que negociações com Irã avançam, mas afirma que prefere “tomar o petróleo” do país

Foto: Official White House Photo by Molly Riley

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou neste domingo (29), em entrevista ao jornal britânico Financial Times, que as negociações indiretas com o Irã estão “indo muito bem”, mas voltou a adotar um tom agressivo ao declarar que sua preferência seria “tomar o petróleo” do rival.

A fala ocorre em meio à escalada da crise no Oriente Médio, intensificada pela guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, e em um momento de forte pressão sobre o mercado internacional de energia. Segundo as informações apresentadas, o barril do petróleo Brent superou os US$ 116 na manhã desta segunda-feira (30), na Ásia, após subir mais de 50% em um mês.

Durante a entrevista, Trump afirmou que uma das possibilidades em avaliação seria assumir o controle da ilha iraniana de Kharg, no golfo Pérsico, principal centro de exportação de petróleo do país.

“Para ser honesto com você, minha coisa favorita é tomar o petróleo do Irã”, disse o presidente ao Financial Times. Em outro trecho, acrescentou: “Talvez tomemos a ilha de Kharg, talvez não. Temos muitas opções”.

Ilha de Kharg é vista como ponto estratégico

A ilha de Kharg é considerada uma estrutura crucial para a economia iraniana, já que concentra grande parte das exportações de petróleo do país. Um eventual ataque ou ocupação da área, no entanto, ampliaria significativamente o risco de agravamento do conflito e poderia prolongar a presença militar americana na região.

Trump admitiu essa possibilidade ao comentar que, caso os EUA assumissem o controle do terminal petrolífero, seria necessário manter tropas no local por algum tempo.

“Isso também significaria que teríamos que ficar lá por um tempo”, declarou. Ao ser questionado sobre a defesa iraniana na ilha, afirmou: “Não acho que eles tenham qualquer defesa. Poderíamos tomá-la muito facilmente”.

As declarações ocorrem enquanto Washington amplia sua presença militar no Oriente Médio. De acordo com as informações divulgadas, o Pentágono determinou o envio de 10 mil soldados treinados para tomar e manter território na região.

Desse total, cerca de 3.500 militares chegaram na sexta-feira (27), incluindo aproximadamente 2.200 fuzileiros navais. Outros 2.200 marines estariam a caminho, além de milhares de soldados da 82ª Divisão Aerotransportada.

Especialistas avaliam, porém, que uma ofensiva direta contra a infraestrutura petrolífera iraniana elevaria o risco de baixas entre militares americanos e aumentaria o custo político, econômico e operacional da guerra.

Nos últimos dias, o conflito ganhou novos contornos regionais. Um ataque a uma base aérea na Arábia Saudita, na sexta-feira (27), feriu 12 soldados americanos e danificou uma aeronave de vigilância E-3 Sentry dos EUA, avaliada em cerca de R$ 1,4 bilhão.

Além disso, rebeldes houthis no Iêmen dispararam mísseis contra Israel, em um movimento que, segundo analistas, pode aprofundar ainda mais a crise energética global.

A tensão também se concentra no estreito de Hormuz, rota por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo. O temor de interrupções no tráfego marítimo ajuda a sustentar a alta das commodities energéticas.

Trump fala em acordo, mas mantém ameaças

Apesar do discurso beligerante, Trump afirmou que as conversas indiretas entre Estados Unidos e Irã, conduzidas por meio de emissários paquistaneses, estariam avançando. Segundo ele, o governo americano estabeleceu 6 de abril como prazo para que Teerã aceite um acordo que encerre a guerra ou enfrente novos ataques ao setor energético.

Questionado sobre a possibilidade de um cessar-fogo nos próximos dias, Trump evitou detalhar as negociações, mas indicou que um entendimento poderia ser alcançado rapidamente.

“Temos cerca de 3.000 alvos restantes. Bombardeamos 13 mil alvos e mais alguns milhares de alvos para atacar. Um acordo poderia ser feito rapidamente”, declarou.

Na entrevista, o presidente dos EUA também afirmou que o Irã permitiu a passagem de navios-tanque paquistaneses pelo estreito de Hormuz como um “presente” à Casa Branca. Segundo Trump, inicialmente dez embarcações haviam recebido autorização e, agora, esse número teria subido para 20.

A alegação, no entanto, segundo o próprio relato apresentado, não pôde ser verificada de imediato.

Trump ainda afirmou que o Irã já teria passado por uma “mudança de regime” após a morte do aiatolá Ali Khamenei e de outros integrantes do alto escalão iraniano no início da guerra. Ele disse também que Mojtaba Khamenei, apontado por ele como novo líder supremo do país, poderia estar morto ou gravemente ferido.

“O filho está morto ou em condições extremamente ruins. Não tivemos notícias dele. Ele sumiu”, afirmou.

Teerã, por sua vez, sustenta que o chefe de Estado iraniano está são e salvo, apesar da ausência pública que alimentou especulações recentes sobre seu estado de saúde.

As declarações de Trump reforçam a contradição que marca o atual estágio da crise: ao mesmo tempo em que a Casa Branca sinaliza avanço diplomático nas negociações com o Irã, o presidente americano mantém ameaças diretas contra ativos estratégicos do rival e fala abertamente em assumir o controle de sua produção de petróleo.

Para o mercado e para os aliados dos EUA na região, a combinação de negociações em curso, reforço militar e retórica agressiva amplia a incerteza sobre os próximos passos do conflito e sobre o impacto global no fornecimento de energia.

Tribuna do Norte

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