O crescimento do Produto
Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Norte em 2026 deve ser limitado por
gargalos estruturais que freiam um desempenho mais robusto das atividades
econômicas do Rio Grande do Norte, conforme avaliam representantes dos
principais setores da economia potiguar. Entraves como dificuldades logísticas,
restrições de crédito, insegurança hídrica e limitações na infraestrutura, além
de projeções pessimistas associadas à indústria extrativa ajudam a explicar a
projeção de expansão “moderada” do PIB estadual, estimada entre 1,1% e 2,3%
pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec-RN). Para o país, conforme
a Resenha Regional do Banco do Brasil, o crescimnento do PIB deve ser de 1,7%,
e o do Nordeste, de 1,3%.
Segundo Pedro Albuquerque,
gerente do Observatório Mais RN, da Federação das Indústrias do Estado (Fiern),
“o cenário de 2026 não é mais favorável do que aquele observado nos anos
anteriores” para o PIB do estado. Para efeito de comparação, ele cita que o
dado mais recente publicado pelo IBGE para variação do Produto Interno Bruto
dos estados brasileiros mostra um crescimento de 2,9% no Nordeste e de 4,2% no
Rio Grande do Norte em 2023.
“As projeções para este ano,
neste sentido, apontam uma diminuição da intensidade deste avanço”, analisa
Pedro Albuquerque. Como gargalo para a indústria, o gerente do Observatório
Mais RN cita aspectos relacionados ao licenciamento ambiental e à baixa previsibilidade
regulatória, além de questões de infraestrutura.
“A modernização dos processos
de licenciamento, com maior transparência, digitalização, padronização de
procedimentos e definição clara de prazos, é fundamental para criar um ambiente
mais estável e confiável ao setor produtivo”, explica.
“Na infraestrutura, as
limitações logísticas continuam sendo um fator crítico. A precariedade de
rodovias estratégicas que conectam municípios e regiões produtoras, a ausência
de uma malha ferroviária funcional e a baixa capacidade portuária para movimentação
de grandes volumes elevam os custos de transporte e reduzem a eficiência das
cadeias produtivas”, acrescenta Albuquerque.
Para o setor de serviços, de
acordo com o presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do
RN (Fecomércio RN), Marcelo Queiroz, há três obstáculos centrais: acesso ao
crédito, disponibilidade de trabalhadores e logística. “A restrição ao
financiamento, decorrente do patamar elevado dos juros, afeta o segmento em
todo o país, assim como a falta de mão de obra, resultado do baixo desemprego e
da diminuição do contingente de jovens em idade produtiva, reflexo de
transformações demográficas”, disse Queiroz.
Para ele, no RN, em especial,
as dificuldades logísticas são mais acentuadas do que na média nacional, em
razão da precariedade das rodovias estaduais e da limitada oferta de conexões
aéreas e marítimas.
Na agropecuária, segundo José
Vieira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern), os
principais gargalos são insegurança hídrica em determinadas regiões, custos
elevados de produção, deficiências logísticas, especialmente nas estradas
vicinais, burocracia ambiental e sanitária e limitações no acesso ao crédito,
sobretudo para pequenos e médios produtores.
“A superação desses entraves
passa por investimentos consistentes em infraestrutura hídrica e logística,
modernização dos instrumentos de crédito rural, fortalecimento da defesa
agropecuária e maior racionalidade regulatória, medidas que cabem ao governo,
uma vez que é do Executivo o papel criar um ambiente favorável à produção e ao
investimento”, afirma Vieira.
José Vieira, presidente da
Faern | Foto: Magnus Nascimento
Setor de serviços puxará
crescimento
Segundo a Secretaria de
Desenvolvimento Econômico do RN (Sedec), as estimativas mínima, (mais
conservadora) e a máxima (mais otimista) incorporam diferentes cenários para a
atividade econômica estadual e refletem, de forma integrada, o desempenho
esperado dos principais setores produtivos e o ambiente macroeconômico vigente.
Os serviços, que atualmente respondem por 75% do PIB estadual, devem manter a
boa escalada de expansão em 2026, na contramão de outros segmentos importantes
para o PIB, mas que terão desempenho mais tímido.
De acordo com a Fecomércio RN,
em 2025 o setor de serviços registrou crescimento superior a 3%, impulsionado
sobretudo pelo turismo, que avançou mais de 5% no estado em termos reais, já
com o efeito inflacionário descontado. Além do turismo, outras atividades
importantes do setor no Rio Grande do Norte, conforme a Fecomércio, são
educação, call center, facilities (limpeza, portaria, jardinagem, segurança e
manutenção), saúde, alimentação, RH, transporte e alojamento.
“De fato, o segmento de
serviços tende a manter sua trajetória de expansão em 2026, garantindo por mais
um exercício o avanço da economia estadual, ao lado do comércio. A continuidade
do baixo nível de desemprego, a criação de postos formais, a elevação da renda,
além da redução dos juros e da inflação, devem favorecer o desempenho dessas
atividades ao longo deste ano”, disse Marcelo Queiroz, presidente da
Fecomércio-RN.
Marcelo Queiroz (Fecomércio) |
Foto: Magnus Nascimento
Como desafios para o PIB do RN
em 2026, a Sedec cita “efeitos adversos” associados à indústria extrativa – de
modo especial, a retração da atividade de petróleo. A indústria representa 20%
do PIB estadual. Pedro Albuquerque, do Observatório Mais RN, afirma que a
participação do setor para formação da projeção do PIB 2026 é de baixo impacto,
visto que há previsão de crescimento de apenas +0,5%. “É um índice diretamente
relacionado aos desafios da expansão do petróleo e gás, conforme observado pela
Pesquisa Industrial Mensal do IBGE 2025”, aponta Albuquerque.
Na agropecuária, que responde
por 5% do PIB estadual, a Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern)
projeta um desempenho “moderadamente positivo”, com melhores perspectivas
concentradas na fruticultura irrigada, na pecuária e na aquicultura, especialmente
a carcinicultura.
“Essas projeções dependem de
condições climáticas minimamente favoráveis, estabilidade macroeconômica,
acesso ao crédito em condições adequadas, manutenção e ampliação de mercados,
sobretudo externos e um ambiente regulatório previsível”, frisa José Álvares
Vieira, presidente da Faern.
Projeção local segue
estimativas moderadas do País
As projeções da Resenha
Regional do Banco do Brasil mostram que, no Nordeste, a Paraíba deve ser o
estado com maior crescimento do PIB em 2026, com mínima de 3,6%, enquanto
Pernambuco deverá ter a menor expansão (0,4%). A estimativa para o RN (1,1%)
coloca o estado com o quinto maior índice da região, atrás do Ceará (1,2%),
Maranhão (2,5%) e Piauí (3,5%), além da PB. Juntamente com Pernambuco, Sergipe
(1,0%), Alagoas (0,9%) e Bahia (0,5%) são as unidades federativas do Nordeste
que podem ter desempenho abaixo do previsto para o Rio Grande do Norte.
O secretário de
Desenvolvimento Econômico do RN, Alan Silveira, explicou que a projeção mínima
para o estado está alinhada às estimativas mais moderadas de crescimento da
economia brasileira e regional. Já a projeção mais otimista, segundo ele,
incorpora um cenário condicional, no qual se pressupõe um desempenho mais
favorável da atividade econômica estadual, especialmente nos setores de
serviços e indústria, que concentram a maior parcela do PIB estadual.
“Para que o Rio Grande do
Norte se aproxime do limite superior da faixa de crescimento projetada, será
fundamental o fortalecimento de um conjunto integrado de políticas públicas que
dinamizem a atividade produtiva e seja capaz de inserir de maneira competitiva
o estado nos mercados nacional e internacional”, falou o secretário.
Ele citou também que o
Programa de Estímulo ao Desenvolvimento Industrial (Proedi) se destaca como um
instrumento de estímulo à produção local, podendo compensar desafios para a
expansão do PIB local, juntamente com ações voltadas à melhoria do ambiente de
negócios, à desburocratização, à segurança jurídica e à atração de
investimentos.
“Um elemento adicional e
estratégico nesse contexto é o Programa RN + Exportação, que tem o objetivo
ampliar a presença das empresas potiguares no comércio exterior. Ao estimular a
internacionalização das empresas locais, o programa contribui para o aumento da
produtividade, a geração de emprego e renda e o fortalecimento dos setores
industrial e de serviços, com efeitos diretos sobre o crescimento do PIB
estadual”, definiu o secretário.
Tribuna do Norte

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