A prova do ENAMED passou a ser a base de dados para indicar a qualidade dos cursos de Medicina do Brasil | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O Rio Grande do Norte ficou
acima da média nacional na primeira edição do ENAMED, com dois cursos de
Medicina com conceito máximo (5), ambos da UFRN, em Natal e na Escola
Multicampi de Ciências Médicas (EMCM), em Caicó. No Estado, UERN, UFERSA e UnP
ficaram com conceito 4, enquanto a Facene/RN, em Mossoró, apareceu com conceito
2.
O ENAMED substitui a prova do Enade para os cursos de Medicina e passou a ser a base de dados para indicar a qualidade do curso, além de poder ser usada pelo estudante como parte do caminho para programas de residência médica via Exame Nacional de Residência (Enare).
Pela metodologia do Inep, no
ENAMED, “proficiente” é o concluinte que atingiu ou superou um padrão mínimo de
desempenho esperado ao final do curso de Medicina. Ou seja, um aluno que, pela
metodologia do exame, demonstra as competências e habilidades mínimas alinhadas
às diretrizes curriculares nacionais para a formação médica. Para o ENAMED
2025, a nota de corte do nível Proficiente ficou em 60.
Ou seja, o conceito do curso,
que varia entre 1 e 5, passa a depender, principalmente, de quantos concluintes
atingiram a pontuação de “proficientes”. Dessa forma, quanto maior o percentual
de proficientes, maior o conceito da instituição de ensino. E, para conceito 5,
o curso precisa ter, pelo menos, 90% ou mais dos concluintes acima desse corte.
Para o Conselho Regional de
Medicina do RN (CREMERN), o ENAMED contribui, mas não esgota a avaliação da
formação. Segundo o presidente, Marcos Jácome, o exame “mede um recorte do
conhecimento” e a qualidade real depende do treino prático supervisionado, com
estrutura como hospitais-escola e ambulatórios. “Para que um médico atue com
dignidade, ética e segurança técnica, a formação deve ir muito além da
aprovação em testes teóricos. A excelência médica é sustentada por um tripé:
Conhecimento Técnico: Base científica sólida; Orientação Psicoética:
Atendimento humanizado e conduta ética e Ambiente Prático Adequado: Este é o
ponto crítico. A Medicina exige um campo de prática robusto (hospitais-escola e
ambulatórios) onde o estudante possa exercitar suas habilidades sob
supervisão”, afirmou Jácome.
O CREMERN também defende
transparência dos resultados para que instituições e alunos identifiquem
lacunas e cobrou uma prova de proficiência para egressos, argumentando que
“provas não refletem a realidade” e que o médico deve sair plenamente apto a
atender. “O objetivo é verificar se o formando realmente aprendeu o suficiente
para atender a população de forma adequada. O ENAMED, embora tenha um padrão
teórico, não exige na prática que as escolas médicas realizem melhorias para
superar suas deficiências com rapidez e eficiência. É comum observar que o
impacto disso recai diretamente sobre os alunos. Afinal, se uma escola é ruim e
não ensina bem, como o aluno poderá aprender Medicina com qualidade?”, explicou
o presidente do conselho regional.
No Brasil, ao todo, foram 350
cursos avaliados, sendo 49 (14%) que atingiram o conceito 5. No conceito 4,
foram 114 (32,6%) e, entre os conceitos 1 e 2, ficaram 107 (30,6%).
Em número de estudantes, o RN
teve 615 concluintes participantes, cerca de 1,6% do total nacional (39.256).
Mesmo assim, o estado ficou com 77,2% dos concluintes acima da proficiência, o
que é acima da taxa nacional, 67,3%.
No contexto potiguar, a UFRN
cravou conceito máximo, com 96,1% na avaliação final. O reitor José Daniel
Diniz Melo classificou o resultado como reconhecimento da “excelência da
qualidade acadêmica” dos cursos na capital e no interior.
Em Caicó, a direção da EMCM
também atribuiu o desempenho à construção coletiva do projeto pedagógico e ao
vínculo com a rede assistencial. O campus seridoense atingiu 90% na avaliação
final. A escola destacou a missão de formar médicos com compromisso social e
com o SUS, mencionando a integração com serviços, preceptoria e hospitais
universitários. “Este resultado é, acima de tudo, reflexo do esforço, do
empenho e da dedicação de cada estudante à própria formação e do compromisso
ético com a excelência”, afirmou em nota.
A UFERSA chegou perto, com o
percentual de 89,2%, e bastava apenas um concluinte com nota acima do corte
para chegar aos 90% e atingir o conceito máximo. Na UERN, faltaram seis, o que
resultou em um percentual de 80,3%. Já na UnP, faltaram 32 concluintes (77,4%)
para atingir o índice para conceito 5 de proficiência.
Por meio de nota, a UERN
celebrou o conceito 4 como sinal de maturidade do curso e afirmou que a busca
pelo 5 está inserida em planos institucionais: “A busca pela nota 5 está
inserida em planos específicos do curso, alinhados ao PDI (Plano de Desenvolvimento
Institucional)… e às diretrizes da avaliação institucional, que envolvem a
análise detalhada dos resultados do ENAMED, o aperfeiçoamento contínuo do
currículo, o fortalecimento dos cenários de prática, o acompanhamento
sistemático do desempenho discente e a qualificação permanente do corpo
docente”.
Em nota, a UnP disse que a
excelência é “diretriz inegociável” e que seguirá investindo na atualização
curricular e na formação prática. “A UnP seguirá investindo na atualização
constante dos currículos, na formação prática dos estudantes e no desenvolvimento
de profissionais preparados para os desafios da saúde no país”, afirmou.
O contraponto do desempenho
estadual é a Facene/RN, em Mossoró, com conceito 2 e 52,4% dos concluintes
acima da proficiência, o que é abaixo dos 60% que já colocariam o curso em
faixa satisfatória (conceito 3). Somados os conceitos 1 e 2, o país teve 13.871
concluintes participantes em cursos insuficientes.
“Provas não refletem toda a
realidade”
Apesar de reconhecer o ENAMED
como um indicador, o CREMERN avalia que o exame, por si só, não é suficiente
para medir se o egresso está pronto para o atendimento. “As provas não refletem
toda a realidade”, afirma Marcos Jácome.
Segundo ele, a avaliação da
formação médica precisa incluir instrumentos que verifiquem a capacidade do
concluinte de exercer a Medicina com segurança, independentemente do conceito
do curso. Para ele, o ENAMED, como está, não atende às expectativas.
Em nota publicada nesta
terça-feira (20), o Conselho Federal de Medicina (CFM) classificou esse cenário
como problema estrutural e defendeu mudanças regulatórias. “Quando mais de um
terço dos egressos de Medicina obtêm desempenho considerado insuficiente pelo
próprio MEC, estamos diante de um problema estrutural gravíssimo. São mais de
13 mil graduados em Medicina que receberão diploma e registro para atender a
população sem terem competências mínimas para exercer a Medicina. Isso é
assustador e coloca em risco a saúde e a segurança de milhões de brasileiros”,
alertou José Hiran Gallo, presidente do CFM.
O governo federal, por sua vez, já anunciou que cursos com baixo desempenho podem ser submetidos a supervisão, com medidas que incluem redução de vagas e suspensão de vestibular.
Tribuna do Norte

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