quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

RN supera média nacional e tem dois cursos de Medicina com nota máxima

A prova do ENAMED passou a ser a base de dados para indicar a qualidade dos cursos de Medicina do Brasil | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Rio Grande do Norte ficou acima da média nacional na primeira edição do ENAMED, com dois cursos de Medicina com conceito máximo (5), ambos da UFRN, em Natal e na Escola Multicampi de Ciências Médicas (EMCM), em Caicó. No Estado, UERN, UFERSA e UnP ficaram com conceito 4, enquanto a Facene/RN, em Mossoró, apareceu com conceito 2.

O ENAMED substitui a prova do Enade para os cursos de Medicina e passou a ser a base de dados para indicar a qualidade do curso, além de poder ser usada pelo estudante como parte do caminho para programas de residência médica via Exame Nacional de Residência (Enare).

Pela metodologia do Inep, no ENAMED, “proficiente” é o concluinte que atingiu ou superou um padrão mínimo de desempenho esperado ao final do curso de Medicina. Ou seja, um aluno que, pela metodologia do exame, demonstra as competências e habilidades mínimas alinhadas às diretrizes curriculares nacionais para a formação médica. Para o ENAMED 2025, a nota de corte do nível Proficiente ficou em 60.

Ou seja, o conceito do curso, que varia entre 1 e 5, passa a depender, principalmente, de quantos concluintes atingiram a pontuação de “proficientes”. Dessa forma, quanto maior o percentual de proficientes, maior o conceito da instituição de ensino. E, para conceito 5, o curso precisa ter, pelo menos, 90% ou mais dos concluintes acima desse corte.

Para o Conselho Regional de Medicina do RN (CREMERN), o ENAMED contribui, mas não esgota a avaliação da formação. Segundo o presidente, Marcos Jácome, o exame “mede um recorte do conhecimento” e a qualidade real depende do treino prático supervisionado, com estrutura como hospitais-escola e ambulatórios. “Para que um médico atue com dignidade, ética e segurança técnica, a formação deve ir muito além da aprovação em testes teóricos. A excelência médica é sustentada por um tripé: Conhecimento Técnico: Base científica sólida; Orientação Psicoética: Atendimento humanizado e conduta ética e Ambiente Prático Adequado: Este é o ponto crítico. A Medicina exige um campo de prática robusto (hospitais-escola e ambulatórios) onde o estudante possa exercitar suas habilidades sob supervisão”, afirmou Jácome.

O CREMERN também defende transparência dos resultados para que instituições e alunos identifiquem lacunas e cobrou uma prova de proficiência para egressos, argumentando que “provas não refletem a realidade” e que o médico deve sair plenamente apto a atender. “O objetivo é verificar se o formando realmente aprendeu o suficiente para atender a população de forma adequada. O ENAMED, embora tenha um padrão teórico, não exige na prática que as escolas médicas realizem melhorias para superar suas deficiências com rapidez e eficiência. É comum observar que o impacto disso recai diretamente sobre os alunos. Afinal, se uma escola é ruim e não ensina bem, como o aluno poderá aprender Medicina com qualidade?”, explicou o presidente do conselho regional.

No Brasil, ao todo, foram 350 cursos avaliados, sendo 49 (14%) que atingiram o conceito 5. No conceito 4, foram 114 (32,6%) e, entre os conceitos 1 e 2, ficaram 107 (30,6%).

Em número de estudantes, o RN teve 615 concluintes participantes, cerca de 1,6% do total nacional (39.256). Mesmo assim, o estado ficou com 77,2% dos concluintes acima da proficiência, o que é acima da taxa nacional, 67,3%.

No contexto potiguar, a UFRN cravou conceito máximo, com 96,1% na avaliação final. O reitor José Daniel Diniz Melo classificou o resultado como reconhecimento da “excelência da qualidade acadêmica” dos cursos na capital e no interior.

Em Caicó, a direção da EMCM também atribuiu o desempenho à construção coletiva do projeto pedagógico e ao vínculo com a rede assistencial. O campus seridoense atingiu 90% na avaliação final. A escola destacou a missão de formar médicos com compromisso social e com o SUS, mencionando a integração com serviços, preceptoria e hospitais universitários. “Este resultado é, acima de tudo, reflexo do esforço, do empenho e da dedicação de cada estudante à própria formação e do compromisso ético com a excelência”, afirmou em nota.

A UFERSA chegou perto, com o percentual de 89,2%, e bastava apenas um concluinte com nota acima do corte para chegar aos 90% e atingir o conceito máximo. Na UERN, faltaram seis, o que resultou em um percentual de 80,3%. Já na UnP, faltaram 32 concluintes (77,4%) para atingir o índice para conceito 5 de proficiência.

Por meio de nota, a UERN celebrou o conceito 4 como sinal de maturidade do curso e afirmou que a busca pelo 5 está inserida em planos institucionais: “A busca pela nota 5 está inserida em planos específicos do curso, alinhados ao PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional)… e às diretrizes da avaliação institucional, que envolvem a análise detalhada dos resultados do ENAMED, o aperfeiçoamento contínuo do currículo, o fortalecimento dos cenários de prática, o acompanhamento sistemático do desempenho discente e a qualificação permanente do corpo docente”.

Em nota, a UnP disse que a excelência é “diretriz inegociável” e que seguirá investindo na atualização curricular e na formação prática. “A UnP seguirá investindo na atualização constante dos currículos, na formação prática dos estudantes e no desenvolvimento de profissionais preparados para os desafios da saúde no país”, afirmou.

O contraponto do desempenho estadual é a Facene/RN, em Mossoró, com conceito 2 e 52,4% dos concluintes acima da proficiência, o que é abaixo dos 60% que já colocariam o curso em faixa satisfatória (conceito 3). Somados os conceitos 1 e 2, o país teve 13.871 concluintes participantes em cursos insuficientes.

“Provas não refletem toda a realidade”

Apesar de reconhecer o ENAMED como um indicador, o CREMERN avalia que o exame, por si só, não é suficiente para medir se o egresso está pronto para o atendimento. “As provas não refletem toda a realidade”, afirma Marcos Jácome.

Segundo ele, a avaliação da formação médica precisa incluir instrumentos que verifiquem a capacidade do concluinte de exercer a Medicina com segurança, independentemente do conceito do curso. Para ele, o ENAMED, como está, não atende às expectativas.

Em nota publicada nesta terça-feira (20), o Conselho Federal de Medicina (CFM) classificou esse cenário como problema estrutural e defendeu mudanças regulatórias. “Quando mais de um terço dos egressos de Medicina obtêm desempenho considerado insuficiente pelo próprio MEC, estamos diante de um problema estrutural gravíssimo. São mais de 13 mil graduados em Medicina que receberão diploma e registro para atender a população sem terem competências mínimas para exercer a Medicina. Isso é assustador e coloca em risco a saúde e a segurança de milhões de brasileiros”, alertou José Hiran Gallo, presidente do CFM.

O governo federal, por sua vez, já anunciou que cursos com baixo desempenho podem ser submetidos a supervisão, com medidas que incluem redução de vagas e suspensão de vestibular.

Tribuna do Norte

Nenhum comentário:

Postar um comentário