A dupla vacância no governo do
Estado, diante da possibilidade da governadora Fátima Bezerra (PT) se
desincompatibilizar para disputar uma vaga no Senado Federal, e, o já anunciado
afastamento do vice-governador, Walter Alves (MDB) para concorrer ao cargo de
deputado Estadual na eleições de 2026; entrou no centro do debate jurídico e
político no Estado. O tema foi detalhado pelo procurador-geral da Casa, Renato
Guerra, ao esclarecer os procedimentos constitucionais que regem a sucessão
provisória e a eventual eleição indireta para o Governo do Rio Grande do Norte.
Segundo Renato Guerra, confirmadas as renúncias, caberá ao Poder Legislativo receber formalmente os pedidos e deflagrar o rito constitucional para a sucessão provisória e a eleição indireta. Pela linha sucessória prevista no artigo 60 da Constituição Estadual, o presidente da ALRN seria o primeiro a assumir temporariamente o governo, seguido pelo presidente do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN), caso haja impedimento.
O procurador-geral explicou,
no entanto, que em ano eleitoral pode haver um conflito entre o dever
institucional de assumir provisoriamente o Executivo e o direito fundamental à
elegibilidade. Nesse contexto, se a assunção implicar restrições ao direito de
ser votado como a exigência de desincompatibilização, o presidente do
Parlamento poderia, de forma justificada, deixar de assumir o cargo
interinamente.
“Diante de uma justificativa
dessa natureza, a Assembleia Legislativa poderia convocar o presidente do
Tribunal de Justiça para exercer a sucessão provisória”, apontou Renato Guerra,
citando precedente do Supremo Tribunal Federal (STF) na ADPF 969, que analisou
situação semelhante ocorrida no estado do Alagoas em 2022.
Paralelamente à sucessão
provisória, a ALRN seria responsável por conduzir o processo de eleição
indireta, que deve ocorrer em até 30 dias após a confirmação da dupla vacância.
O procurador destacou que o
STF reconhece a autonomia dos estados para disciplinar esse tipo de eleição,
desde que respeitados parâmetros constitucionais, como a exigência de chapas
completas para governador e vice, além do cumprimento das condições de elegibilidade.
O entendimento apresentado
pela Procuradoria da ALRN, contudo, encontra contraponto na avaliação do
advogado e professor de Direito Constitucional Erick Pereira. Para ele, a
Constituição é clara ao distinguir sucessão de substituição. “Quem sucede o
governador é o vice. Se o vice não quiser assumir, ele precisa renunciar. Fora
isso, não existe sucessor imediato”, afirma. Segundo o jurista, confirmadas as
renúncias de governador e vice nos dois últimos anos do mandato, o que se impõe
é a realização de eleição indireta, e o papel do presidente da Assembleia é
apenas substituir temporariamente o chefe do Executivo para cumprir esse
encargo constitucional.
Erick Pereira sustenta que
essa substituição provisória não configura sucessão e, portanto, não gera
inelegibilidade. “O presidente da Assembleia não está assumindo para governar
politicamente o Estado. Ele apenas substitui para organizar a eleição. Isso não
o torna inelegível”, explica o especialista, corroborando que o presidente tem
a opção de recusar sem perder o cargo de deputado e presidente da Casa.
De acordo com o especialista,
apenas situações de força maior, como doença, morte ou compromisso oficial
impeditivo, justificariam a transferência da função ao presidente do TJRN,
Desembargador Ibanez Monteiro.
Fora isso, ele lembra que a
Constituição impõe o dever institucional de conduzir o processo, ainda que por
um período curto e com atos restritos à administração urgente. “A natureza da
função é administrativa e transitória. Ele assina apenas o que for necessário
para garantir a continuidade do Estado e a realização da eleição”, diz.
O especialista em Direito
eleitoral, Wlademir Capistrano, é mais pragmático. No entendimento dele o
presidente da Assembleia Legislativa pode recusar a linha sucessória alegando a
causa de inelegibilidade para a disputa ao cargo de deputado estadual agora em
2026, sem que essa recusa configure improbidade ou crime de responsabilidade.
Sem vacância, Walter pode
ficar na vice
Há a possibilidade da vacância
não ocorrer e a governadora concluir seu mandato sem disputar as eleições para
o Senado. Na avaliação de Erick Pereira, o vice-governador Walter Alves, não
precisaria se desincompatibilizar e renunciar, neste cenário. “Não precisa se
afastar, desde que não assuma o cargo de governador”, explica.
Contudo, se ele permanecer
como vice e a governadora se afastar por qualquer motivo formal, temporário,
ele automaticamente deverá assumir o governo como ocorreu em situações
anteriores e só poderia se negar a isso renunciando o mandato. “Se a governadora
se afastar temporariamente, o vice exerce interinamente as funções de
governador. Mas se ele não quiser assumir, terá que renunciar”, afirma Pereira.
Esse contexto o colocaria mais
uma vez no dilema de estar candidato (sem ter deixado o cargo) e, de repente,
ser impedido para assumir, mesmo que interinamente o Estado. “Tem que escolher.
Não pode ficar sem se tornar inelegível. Não pode ficar nos dois”, avalia
Pereira.
RN vive situação semelhante a
AL e RJ
A situação política atípica do
RN é semelhante a outros estados. O precedente mais próximo foi o de Alagoas,
em 2022, quando o então governador Renan Filho (MDB) renunciou para disputar o
Senado e o vice, Luciano Barbosa, já havia deixado o cargo após ser eleito
prefeito de Arapiraca. Diante da dupla vacância, a Assembleia Legislativa
alagoana realizou uma eleição indireta que elegeu Paulo Dantas (MDB) governador
e José Wanderley Neto vice. O processo, no entanto, foi judicializado e acabou
sendo analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que estabeleceu parâmetros
hoje considerados referência nacional: exigência de chapas completas,
observância da Lei de Inelegibilidades e autonomia dos estados para
regulamentar o rito.
Renato Guerra, ALRN, explica
providências para eleição indireta | Foto: EDUARO MAIA
Situação semelhante pode
ocorrer também no Rio de Janeiro, onde o governador Cláudio Castro (PL) avalia
renunciar para disputar o Senado. O estado já está sem vice-governador desde
que Thiago Pampolha deixou o cargo para assumir vaga no Tribunal de Contas do
estado. Caso Castro confirme a saída, a Assembleia Legislativa fluminense
também deverá escolher um governador-tampão por eleição indireta.
ALRN define rito da eleição
indireta
A Assembleia Legislativa já
divulgou os procedimentos que deverão ser adotados em caso de confirmação da
dupla vacância. O processo prevê a publicação de um edital com regras para
inscrição das chapas, prazos de impugnação e critérios de votação. A eleição
deverá ocorrer em até 30 dias após a renúncia definitiva dos dois cargos.
As chapas, obrigatoriamente
compostas por governador e vice-governador, serão escolhidas pelos 24 deputados
estaduais, sendo eleita aquela que obtiver maioria simples, neste caso, pelo
menos 13 votos.
Candidatos
As discussões em torno de
nomes já estão na mesa. O principal grupo de oposição, liderado pelo senador
Rogério Marinho (PL) e que conta com o senador Styvenson Valentim (PSDB), o
prefeito de Natal Paulinho Freire (União) e o ex-prefeito da capital e pré-candidato
do grupo, Álvaro Dias (Republicanos), defende cautela e um perfil técnico para
eventual indicação. “É um desafio muito grande assumir o governo por um período
tão curto. Para esse momento, entendemos que é importante que seja uma pessoa
técnica”, afirmou Álvaro.
Ele explicou que ainda não
houve aprofundamento sobre nomes e que o grupo avalia a gravidade do cenário
fiscal.
Álvaro também afirmou
acreditar que a governadora Fátima Bezerra não renunciará ao cargo para
disputar outro mandato. Para ele, o alto índice de desaprovação do governo pesa
nessa decisão.
Do outro lado, o PT tem
sustentado que a governadora vai renunciar ao cargo por uma disputa ao senado e
que o mesmo candidato nas eleições gerais será apresentado para o mandato
tampão.
“Cadu Xavier é o nome que o PT
está apresentando para as eleições diretas e para as indiretas. Fátima, a
pedido de Lula, é pré-candidata ao Senado”, garantiu Samanda Alves, presidente
estadual da sigla
O secretário estadual da
Fazenda e pré-candidato ao Governo do RNe, Cadu Xavier (PT) está, inclusive,
intensificando sua presença nas redes sociais com vídeos e discurso afinado.

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