O valor honrado, no entanto, é
cobrado de volta ao ente que deixou de pagar o empréstimo. Isso é feito por
meio de um instrumento chamado contragarantia. Se os estados ou municípios
devolverem o montante pago pela União, essa garantia é dada como recuperada. No
caso do RN, de acordo com o relatório do Tesouro Nacional, o estado soma R$
199,07 milhões devolvidos desde 2016, sendo R$ 123,45 milhões recuperados entre
janeiro e julho deste ano. Se houver problemas como refinanciamento ou decisão
judicial, os valores honrados pela União se tornam pendências.
Conforme as informações do
relatório, o RN tem uma pendência de R$ 87,66 milhões em garantias não
recuperadas “porque a execução da contragarantia, referente a aval junto ao
Banco Interamericano de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), foi suspensa por
decisão do STF (ACO nº 3717)”. A TRIBUNA DO NORTE procurou o Governo do Estado,
por meio da Secretaria de Estado do Planejamento, do Orçamento e Gestão
(Seplan) para obter esclarecimentos sobre a situação, mas a pasta disse que o
assunto deveria ser tratado junto a Secretaria da Fazenda (Sefaz). Não houve
respostas por parte da Sefaz.
O economista Thales Penha
avalia que a dívida acumulada pelo estado não é o grande problema, uma vez que
ela é bem inferior a estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais (cujos valores
desde 2015 somam R$ 42,8 bilhões e R$ 21,8 bilhões, respectivamente, segundo o
relatório do Tesouro) e abaixo do que prevê a Lei de Responsabilidade Fiscal
(LRF), mas cita que existe uma complexidade por conta da baixa capacidade de
investimentos em infraestrutura decorrentes de um fluxo de caixa robusto.
“De acordo com a LRF, um
estado pode ter uma dívida acumulada duas vezes maior do que o próprio
orçamento. No caso do RN, que tem um orçamento de R$ 20 bilhões anuais, essa
dívida poderia ser de até R$ 40 bilhões”, frisa. Penha lembra que em 2017 o RN
recebeu nota C na Capag (Capacidade de Pagamento), indicador que mede a
capacidade de um ente de pagar empréstimos com garantias da União. As notas
variam de A a D (da maior para a menor).
“O que levou o RN a essa nota
foi justamente o fluxo de caixa, ou seja, a falta de uma poupança. Assim, o
estado não consegue mais financiamentos que dependem do aval da União para
melhorias de infraestrutura”, afirma o economista, que é professor da UFRN. O
financiamento para o Porto-Indústria verde do RN é um exemplo dos investimentos
afetado pela dificuldade relacionada ao fluxo de caixa, segundo o economista.
“O Estado não consegue pegar um empréstimo por causa desse impedimento junto à
União”, aponta.
Outra questão a ser levada em
conta é que os investimentos públicos podem ser impactados com o direcionamento
de recursos para a recuperação de garantias. “Recursos de arrecadações e
transferências como o IPTU, ISS, ITIV e Fundeb entram no orçamento de estados e
municípios como opção para investimentos em políticas ou pagamentos de dívida
pública. O gestor é quem escolhe, então, certamente, os serviços poderão ser
afetados”, explica o economista.
Para 2026, Thales Penha
analisa que a dependência do estado em relação à União vai depender da dinâmica
da economia que, segundo ele, deverá apresentar leve desaceleração. Para além
disso, o especialista defende que o estado faça ajustes no próprio orçamento
para melhorar a capacidade de investimentos. “O RN precisa enfrentar de maneira
séria a forma como faz a própria distribuição orçamentária. O estado gasta
cerca de 60% com despesas de pessoal, principalmente em carreiras do alto
escalão”, explica.
Municípios
No levantamento dos municípios
brasileiros com maior valor honrado pela União, Natal e São Gonçalo do Amarante
são os destaques no Rio Grande do Norte. De acordo com o relatório do Tesouro
Nacional, a capital potiguar teve R$ 61,41 milhões honrados no período
2016–2020. O Município também aparece em recuperação de garantias com R$ 61,54
milhões recuperados até julho/2025. A reportagem pediu esclarecimentos à
Prefeitura sobre a situação da dívida, mas não houve retorno até o fechamento
desta edição.
São Gonçalo do Amarante teve
R$ 15,18 milhões honrados em 2025, acumulando R$ 23,13 milhões no total, desde
2016. Em recuperação de garantias, já foram recuperados R$ 8,05 milhões desde
2016. Porém, há pendência jurídica de R$ 24,05 milhões referentes a um aval
junto ao Banco Fonplata, cujo valor foi restituído ao município por decisão
judicial. Em nota, o Município disse que o empréstimo foi contraído junto ao
banco no ano de 2020, “período em que a Capag do município foi elevada para a
categoria A, mas rebaixado para a categoria C na gestão passada”.
Ainda segundo a nota, a “atual
gestão assumiu a Prefeitura com as contas bloqueadas pela União em razão de
inadimplências anteriores. Essa situação impossibilitou o pagamento de uma
parcela vencida em maio deste ano, dentro de um cenário de forte desequilíbrio
financeiro herdado”. O Município informou que está executando um plano de
recuperação fiscal e econômica, que permitirá restabelecer o equilíbrio
financeiro e retomar os pagamentos junto ao Fonplata a partir do próximo ano.
Tribuna dop Norte

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