Para pesquisadores e aliados do governo, a
situação evidencia problemas para além da área de comunicação do Planalto, foco
de mudanças recentes. Assim como em episódios como a volta do DPVAT e a
derrubada de outro ato da Receita, sobre isenção na remuneração de líderes
religiosos, a avaliação é que o governo deixou brechas exploradas pelo
bolsonarismo, que conseguiu usar ações do próprio Executivo para atingi-lo nas
suas principais bandeiras.
Evitando rusgas com o eleitorado conservador, Lula tem desviado da chamada
“pauta de costumes” em prol de medidas na área econômica. O foco está nos
estratos de menor remuneração dentro da classe média, no que ficou conhecido
como “nova classe C” em mandatos anteriores do petista. Uma das principais
apostas para contemplar este grupo, anunciada em novembro, foi a isenção do
Imposto de Renda para trabalhadores que recebem até R$ 5 mil mensais, que só é
prevista para 2026.
A oposição bolsonarista, por
sua vez, tem concentrado carga em iniciativas que afetam este segmento no
bolso, especialmente após a repercussão negativa de ações mais rígidas da
própria direita na pauta moral, como o PL Antiaborto.
Compras do exterior
Em abril de 2023, em uma das primeiras ofensivas desse tipo, parlamentares
bolsonaristas atacaram a proposta de taxação de compras de até US$ 50 do
exterior, que ficou conhecida como “taxa das blusinhas”. Preocupado com o
impacto popular, o Ministério da Fazenda recuou da medida na ocasião.
“Os casos do Pix e o da “taxa das blusinhas” mostram que o bolsonarismo chega
ao eleitor mais moderado quando adota discursos não tão radicais. Mas a chave
para os bolsonaristas é conjugar a economia com uma perspectiva moral. Não se
trata só de uma discussão econômica, mas sim de comunicar uma ideia de que um
governo “corrupto” teria o objetivo de “cortar a liberdade” ou atrapalhar a
vida do “trabalhador de bem” — analisa a socióloga Esther Solano, pesquisadora
da Unifesp que realiza estudos qualitativos com eleitores de Bolsonaro.
Para a pesquisadora, “há certo exagero” em vincular a mobilização bolsonarista
unicamente a fake news sobre taxação do Pix. A hipótese foi sugerida pelo
deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), em um vídeo no qual reconheceu que a
resolução da Receita não tratava disso, mas comparou o cenário atual com o da
“taxa das blusinhas”. Após o recuo inicial da Fazenda, a taxação de 20% em
compras de pessoas físicas até US$ 50 acabou aprovada pelo Congresso — com voto
favorável da maioria da bancada bolsonarista — e sancionada por Lula no ano
passado.
Um ponto que causou controvérsia até entre petistas, no entanto, foi a menção
específica ao monitoramento de “transações eletrônicas efetuadas por intermédio
do Sistema de Pagamentos Instantâneos” — isto é, o Pix —, a partir do piso de
R$ 5 mil. A justificativa da Fazenda era aprimorar o controle sobre crimes como
lavagem de dinheiro. Ex-vice-presidente da Câmara, o ex-deputado Marcelo Ramos
(PT-AM), porém, afirmou que “qualquer coisa que cheire a tributação da classe
média” que ganha R$ 5 mil mensais “está errada na origem”.
“É desnecessário qualquer movimento sobre o Pix se você já faz o controle sobre
a conta bancária. Não é só comunicação, e sim um problema de falta de cuidado
da Receita em dialogar com os órgãos políticos. O governo acertou ao recuar do
que estava equivocado”, disse Ramos.
No fim do ano passado, o governo já havia recuado da iniciativa de instituir um
Seguro Obrigatório para Proteção de Vítimas de Acidentes de Trânsito (SPVAT),
em moldes similares ao antigo DPVAT, extinto em 2019. O seguro foi aprovado
pelo Congresso e sancionado por Lula em maio. A ocasião coincidiu com uma
enxurrada de publicações nas redes sociais, alimentadas por bolsonaristas, que
apelidavam o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como “Taxad”. Em dezembro, o
governo articulou a aprovação de uma nova lei, já sancionada por Lula, que
revogou a volta do seguro.
Outro episódio que constrangeu o governo, em janeiro do ano passado, foi a
publicação de um ato da Receita que revogou uma outra norma, de 2022, que
detalhava a isenção de contribuição previdenciária na atividade de líderes
religiosos.
Na ocasião, a Receita disse que seguia o disposto em um processo no Tribunal de Contas da União (TCU), que analisa “possível desvio de finalidade e ausência de motivação” da norma — a isenção, nesse tipo de remuneração, já é prevista por lei desde 2000.
Tribuna do Norte

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