As commodities softs, de forma
consolidada, devem ter pressão intermediária sobre a inflação, assim como o
leite, enquanto os grãos tendem a ter impacto neutro em virtude da perspectiva
de preços estáveis.
O movimento tende a repetir o
já observado no ano passado com uma inflação de alimentos resistente, o que
preocupa o governo em virtude da pressão sobre a inflação geral e, consequente,
atraso no ciclo de corte de juros. Os números mais recentes divulgados pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que os preços de
alimentação e bebidas aumentaram pelo quarto mês seguido. O grupo Alimentação e
bebidas saiu de uma elevação de 1,34% em novembro para uma alta de 1,47% em
dezembro, resultando numa contribuição de 0,32 ponto porcentual para a taxa de
0,34% registrada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15
(IPCA-15) no último mês.
O principal impacto da
aceleração da inflação de alimentos deve vir das proteínas, aponta a analista
da Tendências Consultoria, Gabriela Faria, economista responsável por
agropecuária e biocombustíveis. “A inflação será impulsionada pelo aumento
expressivo dos preços das carnes, estimado em pelo menos 16,6% no valor pago ao
produtor, com repasse à indústria e ao consumidor”, diz. Café e açúcar também
devem contribuir com uma inflação de alimentos mais forte com produções
limitadas, segundo a economista. Em contrapartida, do lado dos grãos, o efeito
dos preços sobre a inflação tende a ser neutro, sem expectativa de altas
acentuadas nas cotações de soja e milho.
A Tendência Consultoria
projeta aumento de 9,1% no IPCA alimentos de 2024 e de 6,2% para este ano, com
viés de alta. Faria cita também o óleo de soja, leite e as commodities softs
como itens de atenção quanto a potencial inflacionário neste ano, além de hortaliças,
frutas e verduras, que têm maior suscetibilidade a variações climáticas e peso
relevante na cesta básica.
O momento atual é de atenção
também sobre o desenvolvimento das lavouras de hortifrútis, afetadas pela seca
histórica do ano passado, aponta o gerente da consultoria Agro do Itaú BBA,
Cesar de Castro Alves. “É preciso observar o acumulado de chuvas nos próximos
dois meses e os efeitos sobre a produção de hortifrútis, que, apesar da rápida
recuperação das lavouras, podem ter pressão momentânea sobre inflação em caso
de perdas nas lavouras”, destaca Alves. Ele concorda com os demais analistas de
que as proteínas e as commodities softs são os produtos mais preocupantes
quanto à pressão inflacionária. “A alta do café ainda não foi repassada ao
varejo e poderemos ter novas máximas históricas. Dos produtos básicos, o trigo
vai depender muito do dólar, já o arroz tende a ter uma ótima safra e o feijão
deve ficar com produção dentro da média”, acrescenta
O sócio-diretor da consultoria
MB Agro, José Carlos Hausknecht, observa que o câmbio será determinante para a
inflação de alimentos neste ano. “Se o dólar se mantiver acima de R$ 6, a
pressão sobre a inflação de alimentos será maior levando a uma política
monetária mais restritiva. Do ponto de vista fiscal, o mercado não vê firmeza
nas medidas do governo, o que gera incerteza, e somado aos preços sustentados
de commodities agrícolas reflete em maior pressão sobre inflação”, avalia.
Estadão Conteúdo

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