quinta-feira, 6 de agosto de 2009

FAZENDA “VOLTA DE NÉ DANTAS”

No início do século passado, entre os anos de 1900 e 1910, não existe registro oficial, tomava posse, o jovem Manoel Salustiano Correia Dantas de Medeiros, conhecido por Né Dantas, de uma gleba de terras com cerca de mil hectares, herdada dos pais, Antônio Dantas Correia de Medeiros e Maria Leocádia de Araujo Dantas de Medeiros. A Fazenda Volta, anos depois, foi rebatizada como “Volta de Né Dantas”.

Seu Né Dantas, antes de se casar com Dª Cristina Eliza de Medeiros havia sido pai de um menino, fruto de uma das muitas aventuras que viveu durante toda a sua vida adulta. Tradicionalmente as grandes famílias, para manter o equilíbrio dos valores sociais e econômicos, casavam os filhos com parentes, sendo o caso do casal Né Dantas e Cristina Eliza, primos legítimos. Mas, para que os pais da noiva aceitassem de bom grado o casamento, já que o rapaz possuía um filho, houve o compromisso por parte dos noivos de criarem o menino como se fosse filho do casal e o noivo esquecer o romance com a mãe da mencionada criança. Porém, meses após o casamento, seu Né Dantas levou para a “casa grande” da fazenda, onde residia o casal, além do filho bastardo a mãe do garoto, agora na condição de amante, obrigando a esposa a conviver em harmonia com a tal situação, fato que causou grande constrangimento às famílias.

Considerado um homem rígido em suas ações, seu Né Dantas passou a condição de bígamo, se relacionando maritalmente e constituindo família com as duas mulheres. Dessa forma, teve 22 filhos legitimados, sendo 11 homens e 11 mulheres, impondo a eles e às suas mães uma vida de conturbações e abstinências. Tratava a todos como serviçais. Homens e mulheres indistintamente trabalhavam nas tarefas da casa e das roças. As crianças não tiveram acesso à escola. A pouca instrução que alguns receberam foi aplicada por Né Dantas, homem de muito conhecimento prático.

Seu Né Dantas, mesmo com seu modelo arcaico na condução familiar, era à época um cidadão bem instruído. Valorizava a leitura, prática na qual buscava conhecer inovações que lhe conviessem. Prático da homeopatia era considerado o médico dos pobres e dos fazendeiros da região, condição que lhe conferia amizade e trânsito livre para viajar e conviver diuturnamente entre os diversos segmentos da sociedade.

Montado na mula “Galante”, animal mais ágil de sua fazenda, Né Dantas viajava semanas a fio percorrendo fazendas e vilas sertão afora, visitando amigos e tratando doentes com medicamentos homeopáticos de sua fabricação, sem que jamais se tenha conhecimento de desavenças por onde passou. Considerado por muitos um homem mulherengo, ao que se sabe, sempre manteve o respeito e a decência em suas andanças.

Por gostar muito de ler, assinante das mais populares revistas de seu tempo, “Seleções” e “O Cruzeiro”, seu Né contava muitas anedotas e piadas, causando risos espantos aos amigos e ouvintes dos “causos” e, por isso, recebeu o adágio de “mentiroso”, patrimônio esse que foi passado para um de seus filhos, Procópio, que conseguiu se firmar, em forma galhofa como exemplo daqueles afamados mentirosos.

Devoto ao catolicismo, seu Né era possuidor de belos oratórios, do tipo barroco, onde, aos pés dos santos, ensinou aos filhos orações e gestos religiosos que foram passados para os netos. Não dispensava o jejum da Semana Santa, nem as ofertas aos pedintes que costumeiramente distribuía-as pessoalmente. Filas eram formadas em frente à casa grande da fazenda e, posteriormente, defronte as casas de sua propriedade na Rua 24 de junho, antigo centro da cidade de Assú/RN.

São tantos os “causos” envolvendo seu Né Dantas que daria para transformar em uma novela épica, sem ficar devendo a tantas já mostradas nas telas de TV. Foi clara, pública e notória a importância de Manoel Salustiano Correia Dantas de Medeiros para o Assú e região, não apenas por contribuir como fazendeiro para o desenvolvimento econômico ou por ter salvado muitas vidas com sua obra beneficente, como por ocasião da epidemia da malária, mas também por sua contribuição à cultura e ao folclore locais.

Este é apenas um breve relato da história de alguém que merece ser lembrado por futuras gerações de sua genealogia.
Que assim seja.

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