quinta-feira, 2 de julho de 2026

Retatrutida: especialista alerta para riscos do uso de canetas emagrecedoras sem aprovação

Foto: Freepik

O relato do empresário e cabeleireiro Thalyson Salvino, de Natal, sobre as complicações que enfrentou após utilizar uma caneta emagrecedora anunciada como retatrutida reacendeu o debate sobre o uso de medicamentos para emagrecimento vendidos de forma irregular. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, a endocrinologista Larissa Pimentel, do Huol-UFRN/Ebserh, explicou que a retatrutida ainda não possui autorização para comercialização no Brasil e alertou para os riscos da utilização de produtos comercializados fora dos canais oficiais, cuja procedência e composição não podem ser verificadas pelos consumidores.

A retatrutida é uma molécula desenvolvida para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, que ainda está em fase de pesquisa clínica. Segundo a endocrinologista, o medicamento pertence a uma nova geração de terapias conhecidas como agonistas triplos, por atuar simultaneamente nos receptores dos hormônios GLP-1, GIP e glucagon, mecanismo que busca atuar sobre o controle do apetite, da saciedade, do metabolismo energético e da glicemia.

Embora os resultados mais recentes das pesquisas clínicas tenham demonstrado perdas expressivas de peso e melhora de indicadores cardiometabólicos, a endocrinologista ressalta que a medicação ainda não recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para comercialização no Brasil. Antes de chegar ao mercado, explica, os dados dos estudos precisam passar pela avaliação das agências regulatórias, que analisam critérios como eficácia, segurança, qualidade de fabricação, estabilidade, dose e perfil de risco-benefício.

Empresário potiguar relata mal estar após uso de caneta emagrecedora com Retatrutida e faz alerta sobre produto

Por esse motivo, a especialista alerta que qualquer produto comercializado atualmente como "caneta de retatrutida" no país está fora do mercado regular. "O paciente não tem como saber se aquilo realmente contém retatrutida, se a dose está correta, se foi fabricado em condições adequadas, se é estéril ou se contém outra substância misturada", afirma.

A médica destaca que essa falta de garantia sobre a composição representa um dos principais riscos para quem adquire medicamentos por canais informais. Segundo ela, apenas análises laboratoriais especializadas conseguem identificar qual substância está presente em uma caneta vendida de forma clandestina. "O consumidor não consegue verificar concentração, pureza, esterilidade ou mesmo qual é o princípio ativo presente no produto. Isso torna o uso extremamente perigoso", explica.

Medicamentos têm indicação específica

Apesar da repercussão envolvendo a retatrutida, a endocrinologista ressalta que medicamentos injetáveis dessa classe já aprovados, como a semaglutida e a tirzepatida, possuem indicações médicas bem estabelecidas tanto para o tratamento do diabetes tipo 2 quanto da obesidade.

No diabetes, essas medicações auxiliam no controle da glicemia e, em alguns casos, também reduzem o risco de complicações cardiovasculares e renais. Já para obesidade, são indicadas para pessoas com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m² ou acima de 27 kg/m² quando existem doenças associadas ao excesso de peso, como hipertensão, diabetes tipo 2, apneia do sono, esteatose hepática e doenças cardiovasculares.

Segundo Larissa Pimentel, esses medicamentos não devem ser vistos apenas como recursos para emagrecimento estético. "A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial. O tratamento envolve alimentação adequada, atividade física, sono, mudanças no estilo de vida e acompanhamento médico contínuo", afirma.

Apesar do relato de Thalyson Salvino incluir sintomas como náuseas intensas e episódios de hipoglicemia, a endocrinologista explica que parte desses sintomas é compatível com os efeitos adversos conhecidos dos medicamentos dessa classe, principalmente quando há doses inadequadas ou aumento muito rápido da dose.

Os efeitos mais frequentes incluem náuseas, sensação de estômago cheio, redução do apetite, vômitos, diarreia, constipação intestinal, refluxo e desconforto abdominal. Segundo a médica, essas reações costumam surgir nas primeiras semanas de tratamento e tendem a diminuir à medida que o organismo se adapta ao medicamento.

Entretanto, referente ao caso do empresário, a endocrinologista ressalta que, no caso de um produto adquirido de forma irregular, não é possível afirmar que os sintomas tenham sido provocados pela retatrutida, justamente porque não há garantia sobre sua composição.

Uso sem orientação médica aumenta os riscos

A médica destaca que pessoas que utilizam medicamentos dessa classe devem interromper o uso e procurar atendimento médico imediato caso apresentem dor abdominal intensa, vômitos persistentes, incapacidade de ingerir líquidos, sinais de desidratação, redução importante da urina, hipoglicemia sintomática, confusão mental, dificuldade para respirar ou reações alérgicas.

Para a endocrinologista, a popularização das "canetas emagrecedoras" nas redes sociais tem incentivado o uso de medicamentos sem avaliação médica e sem garantia de procedência. Segundo ela, o uso sem indicação pode provocar perda excessiva de massa muscular, deficiências nutricionais, desidratação e alterações gastrointestinais. 

"O principal conselho é desconfiar de promessas fáceis. Mais importante do que emagrecer rapidamente é emagrecer com segurança, preservando a saúde e obtendo resultados sustentáveis. O tratamento da obesidade deve seguir critérios médicos, com diagnóstico correto, prescrição individualizada, acompanhamento contínuo e medicamentos de procedência comprovada", conclui.

Tribuna do Norte

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