Roberta Mattos, 21 anos, é a presidente da Produtiva Júnior, empresa do curso de Engenharia de Produção da UFRN que projeta um faturamento de R$ 1,2 milhão em 2026. Foto: Alex Régis
Formadas e geridas por
estudantes universitários, as empresas juniores (EJs) funcionam como uma ponte
entre a sala de aula e o mercado de trabalho, permitindo que os alunos apliquem
na prática o conhecimento adquirido e desenvolvam habilidades profissionais que
se aproximem da dinâmica real do empreendedorismo. No Rio Grande do Norte,
essas empresas têm estimulado os jovens a criar soluções que impactam
diretamente a sociedade e movimentam a economia local. Enquanto para algumas
delas o faturamento ainda é considerado tímido, para outras, a receita bruta já
ultrapassa R$ 1 milhão.
É o caso da Produtiva Júnior, empresa do curso de Engenharia de Produção da
UFRN, fundada em 2009 e que atua em três áreas: financeira, gestão estratégica
e produção. Ao todo, a empresa conta com 48 membros e atende a cerca de 25
clientes, especialmente de Natal e do interior. “Mas já atuamos em estados como
Minas Gerais e São Paulo”, conta a presidente e diretora de gestão de pessoas
da Produtiva, Roberta Mattos, de 21 anos. Ela explica que os serviços são
personalizados, com prazo que varia entre oito meses e um ano, ou duram seis
meses, nos casos de consultoria, para acompanhamento dos clientes.
“Nosso foco é ajudar empresas do varejo ou prestadores de serviços de diversas
áreas, como saúde, administração, advocacia e setor hospitalar, entre outras,
com precificação e gerenciamento financeiro, planejamento e estratégias de
engajamento dos colaboradores nas organizações, além de mapeamento e
indicadores de produção. Para este ano, nossa meta é alcançar um faturamento de
R$ 1,2 milhão, levemente acima das receitas de 2025, que já ficaram acima de R$
1 milhão”, afirma Roberta, que está no 4º período de Engenharia de Produção, na
UFRN.
A Apex Empreendedorismo e Soluções Jurídicas, do curso de Direito da UERN, em
Mossoró, por sua vez, projetou um faturamento bem mais tímido para este ano —
R$ 14 mil —, mas o volume já foi ultrapassado em abril, quando chegou a R$ 17
mil. Criada em 2019 e federada em 2021, a empresa conta com 16 colaboradores e
atende a 10 clientes.
“No ano passado, tínhamos apenas dois. Então, o número de clientes atual
representa uma grande conquista. Trabalhamos com assessoria jurídica, mas, como
somos estudantes, não podemos realizar atividade de advocacia”, explica Rhommel
Liberato, de 20 anos.
Rhommel é aluno do 4º período de Direito da UERN de Mossoró e presidente da
Apex. “Nossa atuação se dá fora da prática litigiosa, em contratos, registro de
marca, consultoria e regularizações. Temos clientes aqui do estado, em cidades
como Mossoró e Pau dos Ferros, e também de fora, do Paraná”, relata Liberato.
Anne Viana e Luana Sousa estão à
frente da empresa 59mil. Foto: Alex Régis
Já a 59mil, do curso de Publicidade e Propaganda (P&P) da UFRN, atua com
assessoria de comunicação. Anne Viana e Luana Sousa, ambas de 20 anos, são
presidente e vice-presidente da empresa, respectivamente.
Com projeção de faturar R$ 135 mil em 2026 — no ano passado, o faturamento foi
de R$ 120 mil —, a EJ conta com um quadro gestor exclusivamente feminino e 24
colaboradores, que atendem a cerca de 20 clientes, com prestação de serviços
voltados à área de publicidade e comunicação para empresas e profissionais
autônomos. “Fazemos a gestão de redes sociais, atualização de sites e produção
fotográfica”, conta Anne, que está no 4º período de P&P da UFRN.
“Nossos colaboradores chegam à empresa, geralmente, no início do curso. Então,
é feita uma trilha de capacitações para ensinar montagem de identidade visual e
uso de ferramentas específicas para o nosso trabalho”, aponta Luana, do 5º
período de P&P.
Equipe da Apex Empreendedorismo e
Soluções Jurídicas, de Mossoró. Foto: Alex Régis
Preocupação social agrega
valor às empresas
Uma empresa júnior é uma associação civil sem fins lucrativos, na qual todo o
faturamento é revertido em investimentos, como a formação dos estudantes dentro
da própria EJ. Além de estimular o empreendedorismo, as empresas têm agregado
valor com iniciativas voltadas à responsabilidade social. Nesse aspecto, a
Nexum Consultoria Jurídica, do curso de Direito da UnP, se destaca. Criada em
2022, a empresa possui cerca de 20 clientes e tem projeção de faturamento de R$
11 mil para 2026.
“Auxiliamos em aberturas de empresas, com serviços como registro de marca e
CNPJ, e revisão de contratos”, relata Yasmin Alves, de 21 anos, presidente e
diretora Comercial e de Marketing da Nexum. Além do trabalho de assessoria
junto aos clientes, a EJ possui um projeto de retificação de nome, o Nomear,
para pessoas transexuais.
“A ideia desse projeto nasceu junto com a Nexum, mas saiu do papel apenas em
2024 e, no ano passado, tivemos as primeiras pessoas contempladas para fazer a
retificação. Estamos com oito processos em andamento, cuja retificação foi
aprovada. Todo o acompanhamento é feito de forma gratuita”, descreve.
Yasmin está no 7º período de Direito da UnP. Apesar da atuação no estado, estar
em uma empresa júnior tem seus desafios. Maria Luyzza Trindade, de 20 anos, é
gerente comercial da Nexum. Para ela, uma das dificuldades mais visíveis é o
reconhecimento da qualidade dos serviços prestados pelas EJs. “Um importante
desafio é conseguir clientes, porque a maioria das pessoas não conhece o
Movimento de Empresas Juniores (MEJ) e, muitas vezes, não dá credibilidade ao
nosso trabalho”, afirma.
E foi para ajudar a encarar os contratempos de maneira assertiva que em 2010
surgiu a Federação das Empresas Juniores do Rio Grande do Norte (RN Júnior),
dedicada também a representar, regulamentar e fomentar o crescimento das
empresas juniores no estado. Hoje, a federação supervisiona 64 EJs de diversas
instituições públicas e privadas de ensino superior no estado — entre elas,
UFRN, Ufersa, UERN, UnP e UNI-RN —, de 45 cursos, que somam 1,2 mil jovens em
formação.
“Nosso objetivo é fomentar o MEJ no estado, formando pessoas por meio da
vivência empresarial. O movimento surge diante de um gargalo dentro das
universidades, que é justamente a vivência do empreendedorismo na prática”,
explica Lucas Santiago, presidente-executivo e diretor de negócios da RN
Júnior.
Para Cecília Siqueira, vice-presidente da Confederação Brasileira de Empresas
Juniores (Brasil Júnior), o Rio Grande do Norte segue a tendência nacional de
expansão das EJs — em todo o país, são 25 mil empresas do tipo —, com
representatividade forte, mas com o desafio de interiorizar o movimento.
“Aqui e no restante do Brasil, a gente visualiza essas empresas muito presentes
nas capitais, mas nós precisamos estar em áreas onde é preciso potencializar a
economia local. No RN, eu considero que essa é uma questão organizacional bem
resolvida, mas que ainda carece de se desenvolver melhor”, discorre.
Segundo a RN Júnior, cerca de metade do total de EJs federadas no estado está
localizada em Natal, enquanto a outra metade está em cidades do interior
potiguar. A expansão para outras regiões, de acordo com a vice-presidente da
Brasil Júnior, é fundamental para democratizar o empreendedorismo.
“Precisamos atingir cada vez mais pessoas. Somente neste ano, até agora, já
temos mais de R$ 2,6 milhões em faturamento gerados pelas empresas juniores no
país. Esperamos conseguir ampliar ainda mais esse mercado aqui no Rio Grande do
Norte e no Brasil”, apontou Siqueira.
Destine’26
De olho na expansão das EJs, a
RN Júnior promove, até este domingo (5), a 12ª edição do Destine’26 (Desafios
Transformados em Inovação no Nordeste), em Nísia Floresta, Região Metropolitana
de Natal. O evento é considerado um dos maiores encontros de empreendedorismo
jovem, liderança e inovação da região e conseguiu reunir, neste ano, um recorde
de mais de 440 congressistas para quatro dias de imersão, capacitação prática e
conexões estratégicas. Ao todo, participam 43 empresas, sendo cinco de outros
estados do Nordeste.
O presidente-executivo da federação, Lucas Santiago, destacou o entusiasmo da
diretoria com o encontro. “É um momento importante para conectar as empresas,
gerar networking, conhecimento e colaboratividade. Este é um de quatro eventos
que realizamos ao longo do ano — outros dois acontecem em Natal e mais um em
Mossoró —, sempre com o intuito de fazer com que os jovens respirem
empreendedorismo”, fala Santiago.
O Destine’26 conta com palestras, workshops, oficinas temáticas e rodadas de
negócios, com atividades voltadas ao desenvolvimento de competências essenciais
para o mercado. Entre os grandes nomes participantes, destaca-se o de Gabriela
Augusto, fundadora da Transcendemos e integrante da lista Forbes Under 30. A
palestrante abordou a importância estratégica da diversidade, equidade e
inclusão na construção de culturas organizacionais fortes.
Felipe Salustino/Repórter
Tribuna do Norte

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