quarta-feira, 3 de junho de 2026

Setor produtivo quer negociar e se mobiliza contra tarifaço dos EUA

Lideranças dos setores afetados, em especial da indústria, começaram a elaborar uma estratégia para tentar reverter a medida que vigora em 15 de julho

Em Goiás, Lula disse que EUA anunciaram taxação em 25% com base em uma mentira - Foto: Agência Brasil

Lideranças do setor privado já se mobilizam no Brasil e nos Estados Unidos para tentar convencer o USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) a reverter o novo tarifaço contra os produtos brasileiros, mas avaliam que o Palácio do Planalto e o Itamaraty precisam demonstrar maior disposição para negociar com a Casa Branca para que a medida seja derrubada.

Já na tarde da terça-feira (2), lideranças dos setores afetados, em especial da indústria, começaram a elaborar uma estratégia para tentar reverter a medida.

A ideia é promover uma mobilização setorial dentro do próprio calendário estabelecido pelo USTR, com o dia 22 de junho como data-limite para pedidos de participação na audiência, envio de comentários por escrito até o dia 1º de julho e participação na audiência pública no dia 6 de julho. O anúncio final está previsto para o dia 15 de julho.

O que diz o relatório

O relatório divulgado pelo governo americano afirma que determinadas políticas e práticas do Brasil seriam “irrazoáveis” e prejudicariam empresas dos Estados Unidos. Entre os pontos citados estão o Pix, questões relacionadas ao comércio digital, propriedade intelectual, etanol, combate ao desmatamento e corrupção.

Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro consideraram a proposta sem fundamento técnico consistente e classificaram como “absurda” a inclusão de alguns argumentos apresentados pelos americanos. Entre as alternativas em análise estão a manutenção das negociações com Washington, por meio do grupo de trabalho criado após a reunião entre Lula e Donald Trump em maio, e eventuais medidas de resposta com base nos instrumentos previstos pela Lei da Reciprocidade Econômica.

O parecer do USTR abre agora uma etapa de consulta pública antes de uma decisão final sobre a adoção das sanções comerciais. O prazo legal para conclusão do processo termina em 15 de julho.

Lula: ‘anunciaram de forma intempestiva’

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira, 2, que os Estados Unidos anunciaram de forma “intempestiva” a taxação de produtos brasileiros em 25%, medida que, segundo ele, foi baseada em uma “mentira”.

A decisão foi publicada na segunda-feira, 1º. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) concluiu uma investigação sobre práticas comerciais brasileiras e propôs a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos importados do Brasil. As medidas devem entrar em vigor até 15 de julho, após audiência marcada para 6 de julho.

Ao comentar o novo tarifaço, Lula afirmou que os EUA justificam a medida alegando um déficit comercial com o Brasil, mas argumentou que, nos últimos 15 anos, os norte-americanos acumularam um superávit de US$ 415 bilhões na balança comercial com o País. Segundo ele, a decisão baseia-se numa “mentira”.

“Eu fiquei preocupado porque acho que o Pix assusta eles”, disse o presidente brasileiro. “Eu falei para o (presidente Donald) Trump: ‘Cara, em vez de ter medo do Pix, coloca o Pix para funcionar nos Estados Unidos. Faz um Pix. É muito mais simples’.”

Lula afirmou ainda que a preocupação dos americanos é que o Pix possa afetar as empresas de cartão de crédito dos Estados Unidos que atuam no Brasil. Segundo ele, o sistema deve avançar sobre esse mercado por ser gratuito, público e de uso simples. “Brasil não aceita ser tratado como se fosse uma republiqueta”, continuou.

A declaração foi dada durante cerimônia de inauguração do Hospital Universitário da Universidade Federal de Catalão (HU-UFCAT), em Goiás. Participaram do evento os ministros Alexandre Padilha (Saúde), Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da República) e Leonardo Barchini (Educação).

Lula afirmou ainda que espera um telefonema do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que ele explique a taxação.

“Eu estou esperando um telefonema seu para me explicar o que aconteceu na sua ausência e na minha ausência, porque esse acordo não pode ter a sua anuência. Nós dois combinamos 30 dias, até 15 de julho, para termos uma resposta sobre o que nós propusemos”, disse Lula.

O petista afirmou ainda que apresentou a Trump propostas envolvendo minerais críticos e terras raras, combate ao crime organizado e ampliação das relações comerciais, além de se colocar à disposição para discutir qualquer tema de interesse do governo americano.

“Trump, é o seguinte, cara: você disse que pintou uma química entre nós. Quem anunciou isso não foi você nem eu. Você me deu uma reunião e eu dei uma reunião para você, porque nós demos 30 dias para os nossos negociadores conversarem”, destacou.

Aos presentes no evento, Lula fez um discurso salientando que o Brasil aprendeu a agir de “cabeça erguida”, sem se considerar melhor nem pior do que outros países. Disse ainda que nunca “baixou a cabeça” para ninguém, que não teme pressões de Trump, não quer guerra com os Estados Unidos, mas busca paz e respeito.

Tribuna do Norte

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