O RN confirmou nesta
quinta-feira (22) o primeiro caso do chamado “superfungo” Candida auris no
estado, um microrganismo fúngico resistente a múltiplos medicamentos e
considerado uma grave ameaça à saúde pública global. De acordo com a Secretaria
de Estado da Saúde Pública (Sesap), o caso foi registrado em um paciente
internado no Hospital Central Coronel Pedro Germano, em Natal.
O paciente, um homem que já estava hospitalizado para tratamento de outra enfermidade, permanece em isolamento de contato sob cuidados médicos. A Sesap informou que equipes hospitalares adotaram imediatamente protocolos reforçados de prevenção para reduzir o risco de transmissão a outros pacientes e profissionais de saúde, e as vigilâncias epidemiológica e sanitária do Estado também iniciaram o monitoramento e rastreamento de contatos, com foco na detecção precoce de possíveis novos casos.
Segundo a infectologista Eveline Pipolo, Candida auris é um fungo que ocorre
exclusivamente em ambiente hospitalar, afetando principalmente pacientes com o
sistema imunológico comprometido. “Para pessoas saudáveis, ele não representa
um risco significativo. A maior preocupação é com pacientes debilitados”,
explica.
O fungo Candida auris — apelidado de “superfungo” por sua super-resistência —
foi identificado pela primeira vez no Japão, em 2009, e, no Brasil, teve seu
primeiro registro em 2020, durante a pandemia de Covid-19. Desde então,
tornou-se um desafio crescente para os sistemas de saúde, principalmente por
sua capacidade de resistir a antifúngicos.
De acordo com Eveline Pipolo, uma das principais características do fungo é a
formação de biofilmes, estruturas que funcionam como uma espécie de “escudo” e
dificultam a ação dos medicamentos. “Esses aglomerados de células tornam o
tratamento mais difícil e também complicam a eliminação do fungo do ambiente,
exigindo protocolos rigorosos de limpeza e desinfecção”, afirma.
Além disso, o C. auris pode sobreviver por longos períodos em equipamentos
médicos e objetos de uso hospitalar, facilitando a transmissão indireta. Por
isso, a maior preocupação das autoridades de saúde é evitar que o fungo se
espalhe dentro da unidade hospitalar ou alcance outros hospitais do Estado.
O professor Rafael Bastos, da UFRN, explica que o termo “superfungo” está
relacionado à resistência de Candida auris aos antifúngicos disponíveis. “Hoje,
existem apenas três grandes grupos de medicamentos utilizados no tratamento: os
azóis, os polienos e as equinocandinas. Candida auris costuma ser resistente a
pelo menos um desses grupos, e, em alguns casos raros, a todos”, afirma.
Apesar disso, Bastos destaca que a maioria das cepas identificadas no Brasil
até agora apresentam sensibilidade aos medicamentos disponíveis. “Das mais de
115 amostras isoladas no país, apenas uma pequena parcela demonstrou
resistência significativa. Ainda não sabemos qual variante foi identificada no
Rio Grande do Norte, mas, em geral, as cepas brasileiras não estão entre as
mais agressivas”, explica.
O diagnóstico de Candida auris também é considerado um desafio. Métodos
laboratoriais convencionais não conseguem diferenciá-lo de outras espécies
menos perigosas do gênero Candida. No entanto, segundo o especialista, o
Laboratório Central Dr. Almino Fernandes (Lacen-RN) dispõe atualmente de
equipamentos modernos, capazes de identificar rapidamente o fungo. A
confirmação final será feita por um laboratório de referência em São Paulo,
conforme protocolo do Ministério da Saúde, processo que deve levar cerca de uma
semana.
No Brasil, o primeiro caso de Candida auris foi registrado na Bahia, em 2020,
quando um surto hospitalar resultou na contaminação de 15 pacientes. Desde
então, o fungo foi identificado em outros estados. Dados da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) apontam que, entre 2020 e novembro de 2025, foram
registrados 22 surtos e 134 casos no país.
Segundo Eveline Pipolo, a presença do fungo não deve levar a população a evitar
hospitais. “O ambiente hospitalar já lida rotineiramente com patógenos
multirresistentes. O que muda agora é a intensificação das medidas de controle,
como limpeza mais frequente, uso de desinfetantes específicos, rastreamento de
pacientes e profissionais”, afirma.
A infectologista reforça que o risco para a população em geral é baixo e que a
resposta rápida das autoridades é fundamental para evitar a disseminação. “A
detecção precoce permite isolar o paciente, testar contatos próximos e impedir
a disseminação do fungo. E é isso que faz toda a diferença”, conclui.
Tribuna do Norte

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