O repasse do câmbio, aliás,
foi mencionado pelo Banco Central na ata do Comitê de Política Monetária
(Copom) de dezembro, que elevou a Selic para 12,25% ao ano e indicou mais dois
aumentos de 1 ponto porcentual. No texto, o colegiado citou que o repasse “aumenta
quando a demanda está mais forte, as expectativas estão desancoradas ou o
movimento cambial é considerado mais persistente”.
“A economia parece ter vários
desequilíbrios atualmente, com destaque para uma demanda que está esticada em
relação à oferta” reforça o economista da consultoria Quantitas João Fernandes.
“Começa-se a antecipar que haverá efeitos inflacionários, mas ninguém sabe ao
certo o tamanho deles. Com um ambiente de dólar alto, as pessoas [formadores de
preço] pensam: ‘eu não sei quanto mais esse dólar vai subir, mas isso vai virar
custo para mim, então é melhor eu repassar essa desvalorização cambial logo'”,
detalha.
Ele trabalha hoje, em seus
modelos de projeção de inflação, com um pass through do câmbio entre 8% e 10%,
isto é, uma desvalorização do câmbio de 10% pode levar, no limite, a um Índice
Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de quatro trimestres à frente 1,0
ponto porcentual mais alto. “Até mais ou menos 2021, esse repasse era mais
baixo, entre 6% e 7%”, aponta.
Fernandes ressalta, contudo,
que há gradações diferentes desse repasse, a depender do tipo de item, já que
nos alimentos (14%) e bens industriais (8%) a tendência do repasse é muito mais
forte do que nos serviços (2%).
O economista da Terra
Investimentos Homero Guizzo tem uma análise semelhante, já que, segundo ele, em
momentos em que a economia opera muito próxima ou acima de sua capacidade, como
o atual, é natural que a desvalorização do câmbio seja repassada com mais
rapidez e força aos preços ao consumidor. “Se o hiato do produto efetivo
estivesse um pouco acima, e não expressivamente acima, a depreciação seria
absorvida nas cadeias de distribuição mais facilmente”, afirma Guizzo.
Ele calcula que o pass through
da desvalorização cambial costumava ficar em torno de 4%, mas, no ambiente
atual está em 8%. Ou seja, a cada 10% de desvalorização da moeda, o headline do
IPCA aumenta 0,8 ponto porcentual, estimativa próxima a da Quantitas.
Já a estrategista de inflação
da Warren Investimentos, Andréa Ângelo, atenta não só para a intensidade desse
repasse, mas para sua velocidade, que também está maior.
Ela conta que um estudo feito
pela Warren apontou que a defasagem de movimentos de desvalorização cambial
para os preços ao consumidor, que no período pré-pandemia durava até quatro
trimestres, hoje tem ocorrido praticamente dentro de apenas um trimestre, ao
menos numa cesta específica de itens, que tem correlação mais forte com a
cotação do dólar. A cesta inclui principalmente bens como móveis,
eletroeletrônicos e itens de higiene pessoal e limpeza.
“Entendemos que esse momento
de repasse maior e mais rápido pode ter a ver com essas variáveis, como
economia sobreaquecida e as expectativas de inflação mais elevadas”, comenta
Ângelo.
Ela destaca ainda que os
preços atualmente têm refletido o movimento do dólar entre julho e outubro, de
cerca de R$ 5,55 para a casa de R$ 5,80. A desvalorização mais recente do
câmbio, de R$ 5,80 para R$ 6, portanto, só deve ser sentida a partir dos meses
iniciais de 2025, afirma. A Warren projeta IPCA de 4,9% em 2024 e 5,15% ao
final do ano que vem.
A análise é corroborada por
Fernandes, da Quantitas: “o grosso do efeito da última desvalorização vai pegar
na inflação ao longo de 2025, com bens e alimentos sendo os vilões. Os serviços
já estavam altos e vão continuar altos”, diz o economista. Ele trabalha com um
cenário em que o IPCA sai de 4,8% no fim de 2024 e vai a 5,5% no encerramento
de 2025. “Esse 0,7 pp a mais majoritariamente reflete alimentos e bens, que é
aquilo que está sendo muito influenciado pelo câmbio”, emenda.
Estadão Conteúdo

Nenhum comentário:
Postar um comentário