sábado, 4 de abril de 2026

Novos hotéis na Costeira poderiam atrair R$ 1,4 bi e gerar 1,5 mil empregos diretos

A análise elaborada pela Federação do Comércio do Estado (Fecomércio) aponta solução viável para desenvolver a Via Costeira | Foto: Adriano Abreu

A construção de hotéis em oito terrenos obsoletos da Via Costeira, no porte dos atuais empreendimentos existentes, pode atrair até R$ 1,4 bilhão em investimentos, em 60 meses, e injetar R$ 593,1 milhões ao ano na economia de Natal, segundo a “Análise do Turismo Natalense”, elaborada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Rio Grande do Norte (Fecomércio-RN). Sete desses terrenos estão incluídos em medida cautelar do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN), que suspendeu a concessão de novos prazos às concessionárias dos terrenos porque elas não cumpriram as obrigações previstas, e o oitavo se refere ao “esqueleto” do antigo Hotel BRA.

Esse volume de investimentos tem potencial para adicionar 1.520 apartamentos e 5.360 leitos à rede hoteleira da capital potiguar, projeta a Fecomércio-RN. Esse aumento pode movimentar quase R$ 600 milhões por ano, considerando o gasto médio diário individual do turista em Natal (que é de R$ 505,23, segundo o Instituto Fecomércio) e uma ocupação média anual de 60%.

Com oito hotéis do porte dos que já existem no local, a arrecadação de impostos também aumentaria: ISS (+ R$ 21,8 milhões), ICMS (+ R$ 5,1 milhões) e IPTU (R$ + 2,1 milhões). Além disso, o estudo aponta que a operação desses empreendimentos demandaria a contratação direta de 1.360 trabalhadores formais, o que adicionaria uma renda anual de R$ 41,9 milhões à economia.

Entidades do setor produtivo potiguar avaliam com cautela a repercussão da recente suspensão de atos do Governo que ampliavam prazos de concessões de terrenos na Via Costeira, um dos principais polos turísticos de Natal. A medida é do TCE-RN e se refere a sete terrenos. De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do RN (ABIH-RN), a região concentra grande parte da capacidade instalada da hotelaria de padrão médio e alto da capital potiguar. Ao todo, são 10 hotéis, com 6.700 leitos, e 1.700 empregos diretos gerados pelos meios de hospedagem.

A atividade turística em Natal movimentou R$ 6,57 bilhões e respondeu por mais de 58% da receita do setor no estado em 2024, segundo o estudo “Economia do Turismo: Brasil, Estados e Municípios”, da Fecomércio-RN. Os empreendimentos da Via Costeira contribuíram para a arrecadação municipal e estadual em 2025, por meio do ISS (R$ 27,2 milhões), ICMS (R$ 6,4 milhões) e IPTU (R$ 2,6 milhões). Hoje, o setor emprega 20 mil pessoas com carteira assinada em Natal.

As concessões iniciadas nas décadas de 1980 e 1990, visavam à construção de hotéis e equipamentos turísticos. No entanto, uma análise do TCE-RN constatou que as empresas acumulam décadas de inércia, apesar de sucessivas prorrogações nos contratos.

O economista William Figueiredo, da Fecomércio-RN, diz que o investimento previsto com a construção de oito hotéis é um valor substancial, que precisa ser destravado e que demandaria certo tempo. “A [Lei nº 12.079/2025, que permite novos empreendimentos na Via Costeira] dá 36 meses para a construção em cada operação. Nesse tempo, esse investimento pode até aumentar, de acordo com a inflação dos produtos e materiais de construção”, pontua. “Natal tem um potencial turístico que não está conseguindo explorar ao máximo. A Via Costeira, com oito terrenos, poderia gerar investimentos, empregos e uma movimentação financeira que auxiliaria na economia da capital”, afirma Figueiredo.

Foto: Pedro Henrique Brandão/Jovem Pan News Natal

Medida cautelar do TCE suspende concessões

A suspensão das concessões de uso, adotada pelo TCE-RN em caráter cautelar em 18 de março, atinge áreas cedidas pelo Governo do RN à iniciativa privada para a construção de hotéis e outros empreendimentos, cujas obrigações não foram cumpridas. Ou seja, atinge terrenos em que as empresas não construíram os hotéis, mas tinham permissão para isso desde os anos 1980 e 1990.

O Estado assinou, em 2024, termos aditivos para redefinir os prazos de concessão nos sete casos analisados pelo TCE-RN. Porém, o Tribunal identificou irregularidades nos atos, como fragilidade financeira das concessionárias, possíveis problemas societários, dúvidas sobre a titularidade de áreas e uso inadequado dos imóveis públicos.

A decisão por suspender os atos foi tomada após auditoria do Tribunal identificar que as empresas não cumpriram obrigações contratuais, mesmo após sucessivas prorrogações ao longo de décadas. Com isso, ficam suspensos novos atos, incluindo implantação ou ampliação de empreendimentos, até nova decisão do Tribunal.

O TCE-RN determinou, no âmbito do procedimento, que a Datanorte apresentasse, em até 90 dias úteis, um Plano de Ação Estratégico e de Destinação Imobiliária para as áreas envolvidas. O plano deve conter propostas de regularização, avaliação dos contratos e possível nova destinação das áreas, priorizando transparência e interesse público.

Segundo Hugo Veras, auditor de controle externo do TCE-RN, a análise técnica evidenciou o histórico das sete concessões, avaliando cada contrato de forma individualizada e garantindo direito à defesa para as empresas. A decisão do Tribunal Pleno do TCE-RN considerou que os acordos judiciais existentes não têm caráter definitivo.

Análise preliminar da Diretoria de Controle Externo de Contas de Gestão e Despesa Pública apontou para diversas irregularidades, que foram “constatadas a partir da ausência de fiscalização do Estado e das evidências que demonstram que as empresas não tinham capacidade econômico-financeira para executar as concessões”, diz Veras.

A medida não determina o fechamento de hotéis em funcionamento, destaca o auditor. Ela analisa terrenos públicos cedidos há mais de 40 anos para a construção de empreendimentos que não foram realizados.

A partir da decisão, o Estado deverá reavaliar a destinação desses terrenos. “O Tribunal não é um obstáculo ao desenvolvimento do estado. O que ele pretende, na decisão, é permitir que o Estado avalie para chegar à conclusão de qual o melhor caminho, dentro da sua competência, [para os terrenos]”, afirma Veras.

Segundo o auditor, o Tribunal busca repor a segurança jurídica para empreendimentos, à medida que pede que o Estado analise o melhor uso de áreas que estão obsoletas há décadas, com critérios claros de qual finalidade terão. O TCE-RN esclarece que a Lei Estadual nº 12.079/2025 não reativa automaticamente concessões antigas e não permite prorrogar contratos já descumpridos.

O Tribunal determinou ainda que a Datanorte priorize realizar licitação em um eventual novo modelo de uso dos terrenos. A reportagem da TRIBUNA DO NORTE buscou a Datanorte (Companhia de Processamento de Dados do RN) para que o órgão se posicionasse, mas não conseguiu retorno até o fechamento desta edição.

Leia mais:

Setor produtivo vê insegurança jurídica e impacto negativo no turismo potiguar

Fernando Azevêdo
Repórter

Tribuna do Norte

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