Com o bloqueio de 14,5% do orçamento
de universidades e institutos federais anunciado pelo Ministério da Educação na
semana passada, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a
Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) e o Instituto Federal
do Rio Grande do Norte (IFRN), contabilizam, juntos, um corte de R$ 43,9
milhões. A situação preocupa parte das instituições, que terão de adequar o
orçamento para manter os serviços mínimos até o final do ano.
o IFRN, o bloqueio, de acordo com o reitor da
Instituição, professor José Arnóbio, é de R$ 13.000.088,65. Segundo ele,
ensino, pesquisa e extensão serão afetados com o corte que, somado aos dos
últimos quatro anos, somam cerca de R$ 28 milhões. “De 2018 para cá temos
perdas da ordem de R$ 15 milhões. Esse novo corte nos coloca uma redução de
praticamente R$ 30 milhões, sendo que o valor dos nossos contratos aumenta”,
afirma.
Na tarde dessa segunda-feria (30), o reitor
participou de uma reunião com o Grupo de Trabalho do Orçamento (GTO) da instituição
para análise de adequações que serão discutidas nesta terça-feira (31) com os
diretores de todos os campi do Estado. “O ano de 2022 já está com um
comprometimento muito grande e a gente vai discutir como viabilizar
nossas ações, a partir dessa redução significativa no orçamento, que já é
pequeno”, explica o reitor.
De acordo com José Arnóbio, não há risco de
encerramento de contratos terceirizados, mas a redução do orçamento pode
ocasionar em enxugamentos, com demissão de profissionais como auxiliares de
serviços gerais e porteiros, por exemplo. Além disso, aulas de campo e
trabalhos de pesquisa e extensão serão “duramente afetados” pelos cortes.
A assistência estudantil também deve sofrer os
impactos da redução orçamentária. “O IFRN tem mais de 800 alunos com
deficiência. Nossas dependências precisam de adaptações e gente tem a
necessidade de contratar, por exemplo, profissionais para atender a esses
estudantes”. Os contratos continuados (água, luz e terceirizados), são
outra preocupação do gestor, uma vez que os valores são majorados todos os
anos.
José Arnóbio defende que é preciso garantir o
funcionamento pleno funcionamento da instituição. “Vamos fazer adequações para
poder chegar ao final do ano com a instituição atendendo minimamente os nossos
alunos, o que é um problema, porque nós não podemos atender de forma mínima. O
essencial é que todas as ações aconteçam em sua plenitude”, ressalta.
Para José Daniel Diniz, reitor da UFRN, “a situação
é extremamente grave e precisa ser revertida com urgência”. Na universidade, o
bloqueio é de R$ 23.972.313,00. O valor se soma a uma redução de mais de R$ 11
milhões que já havia sido feita neste ano. Desta vez, a restrição se refere a
despesas para manutenção de custeio (limpeza, segurança, energia e água).
“Neste ano, a UFRN retomou as atividades
presenciais de forma integral, com aumento significativo dos seus contratos,
como energia elétrica e terceirização de serviços. Em contrapartida, fomos
surpreendidos com este bloqueio. É nesta ação que está o orçamento de custeio
da Universidade, que já havia sofrido corte de mais de R$ 11 milhões”, adverte
Daniel Diniz.
José Arnóbio, do IFRN, indica que o retorno ao
ensino presencial na instituição de forma integral em 2022 também é motivo de
maior preocupação em relação ao mais recente bloqueio. “Estamos voltando de uma
pandemia, onde ficamos praticamente dois anos trabalhando quase que de forma
remota. Depois, iniciamos o formato híbrido e retomamos a integralidade das
atividades presenciais em 2022. Tudo aqui acontece de forma muito articulada,
então, toda a instituição é afetada”, avalia o reitor.
Na Ufersa, o bloqueio é de R$ 7.011.233,00. A
reitora da instituição, Ludimilla Oliveira, esclareceu não haver impactos na
universidade, porque a medida já era esperada, segundo ela. “Nós tínhamos feito
um planejamento, porque esse sistema de bloqueio de contingenciamento da
execução orçamentária na administração pública acontece todos os anos”, pontua.
De acordo com ela, as ações de ensino, pesquisa e
extensão estão mantidas, bem como os contratos terceirizados. “O bloqueio está
mais atrelado à questão da expansão [das universidades] do que ao custeio da
continuidade da gestão”, explicou. Questionada se o custeio da continuidade da
gestão não fica comprometida com o bloqueio, a reitora afirmou que a
universidade não se programou para gastar os R$ 7 milhões neste momento e por
isso não haverá comprometimento em contratos.
Andifes critica bloqueio de recursos federais
O valor total do bloqueio do MEC, que corresponde a
14,5% da verba para as universidades e institutos federais é de R$ 3,23
bilhões, que seriam utilizados para despesas de custeio e investimento. De
acordo com a pasta, o bloqueio foi aplicado para atender à decisão da Junta de
Execução Orçamentária (JEO), que designa o estabelecimento de metas anuais e
limites globais de despesas constantes da proposta de orçamento anual.
O MEC disse que, “contudo, as programações
bloqueadas poderão ser alteradas por cada Unidade Orçamentária, em momento
posterior, por meio de solicitação de alteração via sistema (SIOP)”. No sábado
(28), um dia após o anúncio do bloqueio por parte do MEC, a Associação Nacional
dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes)
classificou, por meio de nota, como “inadmissível, incompreensível e
injustificável o corte orçamentário procedido pelo Governo nos orçamentos das
universidades e institutos federais brasileiros”.
A Andifes destacou que o corte inviabiliza a
permanência de estudantes de baixa renda no Ensino Superior e impede o
funcionamento das instituições. A Associação salienta que nem a atuação das
universidades frente à pandemia de covid-19, com “protagonismo e êxito em favor
da ciência e da sociedade”, foi suficiente para impedir o bloqueio, que já
ocorre, de acordo com a nota, de forma sistemática desde 2016.
A entidade chama atenção, ainda, para o fato de o
orçamento de 2022 já ter sido aprovado em valores muito aquém do que era
necessário, abaixo dos valores orçamentários de 2020. “Depois de tudo isso, o
governo federal ainda impinge um corte de mais de 14,5% sobre nossos
orçamentos, inclusive os recursos para assistência estudantil, inviabilizando,
na prática, a permanência dos estudantes socioeconomicamente vulneráveis, o
próprio funcionamento das instituições federais de ensino e a possibilidade de
fechar as contas neste ano”, afirma a nota.
Ainda na nota, a Andifes questiona a justificativa
dada pelo MEC para mais uma redução. “A justificativa dada – a necessidade de
reajustar os salários de todo o funcionalismo público federal em 5% – não tem
fundamento no próprio orçamento público. A defasagem salarial dos servidores
públicos é bem maior do que os 5% divulgados pelo governo e sua recomposição
não depende de mais cortes na educação, ciência e tecnologia” diz a nota.
Outro ponto destacado pela Andifes é o corte de
cerca de R$ 3 bilhões, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações,
incluindo de verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (FNDCT), que são carimbadas por lei para o financiamento da
pesquisa científica e tecnológica no Brasil. “Não existe lógica, portanto, por
que o corte de orçamento das universidades, institutos e do financiamento da
ciência e da tecnologia brasileiras é que deva arcar desproporcionalmente com
esse ônus”, sublinhou a Andifes.