O Grupo Odebrecht anunciou,
nesta terça-feira (22), que decidiu colaborar com a investigação sediada em
Curitiba da Operação Lava Jato. Além de um acordo de leniência já em curso com
a Controladoria Geral da União (CGU), todos os executivos da empreiteira concordaram
em fazer acordos de delação premiada, que, em nota, a empresa chama de
"colaboração definitiva". Ainda que não cite nomes, a decisão inclui
também o ex-presidente do grupo, Marcelo Odebrecht, preso desde junho de 2015.
A informação foi noticiada com exclusividade pelo Jornal Nacional. (Leia a íntegra da nota
abaixo)
A empresa não entrou em
detalhes sobre a delação. Por essa razão, a Odebrecht não entrou em detalhes na nota emitida
nesta segunda-feira.
A decisão foi anunciada no
mesmo dia em que a 26ª fase da Operação Lava Jato cumpriu mandados de busca e
apreensão e prisões de pessoas ligadas ao grupo.
A Polícia Federal (PF) sustenta que a empresa mantinha
um “Setor de Operações Estruturadas” que servia como uma contabilidade paralela
para o pagamento de propina.
Embora a nota não cite nomes,
a TV Globo apurou que a decisão inclui o presidente afastado do grupo, Marcelo
Odebrecht, preso desde junho de 2015. Ele já foi condenado a 19 anos e quatro
meses de prisão em um processo da Lava Jato, pelos crimes de corrupção, lavagem
de dinheiro e organização criminosa e responde a mais uma ação criminal por
corrupção.
Cabe ao Ministério
Público Federal (MPF)
avaliar as vantagens de selar, ou não esses acordos com a empresa e os
executivos. O órgão informou que não existem acordos de colaboração fechados
com executivos da Odebrecht. Informou ainda que terão prioridade acordos
de delação que se revelarem mais importantes para o interesse público.
Os acordos de delação
precisam, por lei, ser sigilosos.
Na nota emitida, a Odebrecht
informou que os acionistas e os executivos “decidiram por uma colaboração
definitiva” com as investigações da Lava Jato. Afirmou ainda que espera que os
esclarecimentos da colaboração contribuam com a Justiça Brasileira, e prometeu
adotar novas práticas de relacionamento com a esfera pública.
O pronunciamento diz ainda que
a Odebrecht não tem “responsabilidade dominante” sobre os fatos apurados pela
Lava Jato, mas que eles revelam a “existência de um sistema ilegal e ilegítimo
de financiamento partidário-eleitoral do país”.
"Dedurar"
Em setembro de 2015, Marcelo Odebrecht negou aos deputados da CPI da
Petrobras a possibilidade de assinar acordo de delação premiada. “Para alguém
dedurar, ele precisa ter o que dedurar. Isso não ocorre aqui", disse.
Odebrecht disse ainda que
tinha valores dos quais não abriria mão, citando uma briga entre suas filhas.
"Eu talvez brigasse mais com quem dedurou do que aquela que fez o fato”,
afirmou.
Processos
Marcelo Odebrecht, Marcio Faria da Silva, Rogério Santos de Araújo, César Ramos
Rocha e Alexandrino Alencar foram condenados em ação que apurou crimes de
corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa na Refinaria Presidente
Getúlio Vargas (Repar), na Refinaria Abreu e Lima (RNEST) e no Complexo Petroquímico
do Rio de Janeiro (Comperj).
As penas deles variaram de 13
anos e seis meses de prisão até 19 anos e quatro meses. Relembre.
No processo que ainda tramita
na primeira instância da Justiça Federal, Marcelo Odebrecht, Marcio Faria da
Silva, Rogério Santos Araújo, e César Ramos Rocha respondem por corrupção.
Os contratos investigados são
relacionados aos projetos de terraplenagem no Complexo Petroquímico do Rio de
Janeiro (Comperj) e na Refinaria Abreu de Lima (RNEST); à Unidade de
Processamento de Condensado de Gás Natural (UPCGN II e III) do Terminal de
Cabiunas (Tecab); à Tocha e Gasoduto de Cabiunas; e às plataformas P-59; P-60,
na Bahia.
26ª fase
A força-tarefa da Lava Jato afirmou nesta terça-feira que a Odebrecht tinha uma
estrutura profissional de pagamento de propina em dinheiro no Brasil. A
empresa, ainda conforme a investigação, tinha funcionários dedicados a uma
espécie de contabilidade paralela que visava pagamentos ilícitos. A área era
chamada de "Setor de Operações Estruturadas".
O Ministério Público Federal
(MPF) afirma que os pagamentos feitos pela Odebrecht estão atrelados a diversas
obras e serviços federais e também a governos estaduais e municipais. Dentre
elas está a construção da Arena Corinthians, segundo o procurador Carlos Fernando
dos Santos Lima.
A estimativa é de, ao menos,
R$ 66 milhões em propina distribuída entre 25 a 30 pessoas. Este valor, segundo
a Polícia Federal (PF), estava disponível em apenas uma das contas identificada
como pertecente à contabilidade paralela da empresa.
Além do estádio, a operação
também investiga irregularidades no Canal do Sertão, na Supervias, no Aeroporto
de Goiânia e na Trensurb, do Rio Grande do Sul.
Foram expedidos 110 mandados
judiciais nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande
do Sul, Bahia, Piauí, Minas Gerais, Pernambuco e no Distrito Federal. A atual
fase foi batizada de Xepa.
Esta nova fase foi embasada na
delação premiada de Maria Lúcia Tavares, ex-funcionária da Odebrecht, que
trabalhava no Setor de Operações Estruturadas. Ela havia sido presa na 23ª fase
da operação e decidiu colaborar com as investigações.
Segundo os depoimentos, ela
era responsável por repassar as informações das planilhas de pagamentos
paralelos para os entregadores, e depois receber deles os extratos para fazer a
conferência com as planilhas que recebia.
As planilhas geradas a cada
semana continham nome de obras, codinomes dos beneficiários dos pagamentos, os
números das requisições e os nomes de quem era os responsáveis pelas solicitações.
Cabia à delatora somar os valores que deveriam ser entregues em cada uma das
cidades indicadas na planilha para verificar quanto seria preciso
disponibilizar.
Leia a íntegra da nota:
As
avaliações e reflexões levadas a efeito por nossos acionistas e executivos
levaram a Odebrecht a decidir por uma colaboração definitiva com as
investigações da Operação Lava Jato.
A
empresa, que identificou a necessidade de implantar melhorias em suas práticas,
vem mantendo contato com as autoridades com o objetivo de colaborar com as
investigações, além da iniciativa de leniência já adotada em dezembro junto à
Controladoria Geral da União.
Esperamos
que os esclarecimentos da colaboração contribuam significativamente com a
Justiça brasileira e com a construção de um Brasil melhor.
Na
mesma direção, seguimos aperfeiçoando nosso sistema de conformidade e nosso
modelo de governança; estamos em processo avançado de adesão ao Pacto Global,
da ONU, que visa mobilizar a comunidade empresarial internacional para a
adoção, em suas práticas de negócios, de valores reconhecidos nas áreas de
direitos humanos, relações de trabalho, meio ambiente e combate à corrupção;
estabelecemos metas de conformidade para que nossos negócios se enquadrarem
como Empresa Pró-Ética (da CGU), iniciativa que incentiva as empresas a
implantarem medidas de prevenção e combate à corrupção e outros tipos de
fraudes. Vamos, também, adotar novas práticas de relacionamento com a esfera
pública.
Apesar
de todas as dificuldades e da consciência de não termos responsabilidade
dominante sobre os fatos apurados na Operação Lava Jato – que revela na verdade
a existência de um sistema ilegal e ilegítimo de financiamento do sistema
partidário-eleitoral do país – seguimos acreditando no Brasil.
Ao
contribuir com o aprimoramento do contexto institucional, a Odebrecht olha para
si e procura evoluir, mirando o futuro. Entendemos nossa responsabilidade
social e econômica, e iremos cumprir nossos contratos e manter seus
investimentos. Assim, poderemos preservar os empregos diretos e indiretos que
geramos e prosseguir no papel de agente econômico relevante, de forma
responsável e sustentável.
Em
respeito aos nossos mais de 130 mil integrantes, alguns deles tantas vezes
injustamente retratados, às suas famílias, aos nossos clientes, às comunidades
em que atuamos, aos nossos parceiros e à sociedade em geral, manifestamos nosso
compromisso com o país. São 72 anos de história e sabemos que temos que avançar
por meio de ações práticas, do diálogo e da transparência.
Nosso
compromisso é o de evoluir com o Brasil e para o Brasil.