O presidente do Sinduscon/RN fala sobre atrasos nos repasses ao programa, sobreconsequências e perspectivas das construtoras
Em
entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o presidente do Sinduscon/RN, Arnaldo Gaspar
Júnior, falou sobre os problemas que as empresas têm enfrentado no programa e
os reflexos deles. Um deles foi a redução do corpo de trabalho entre 30% e 40%,
desde o início do atraso nos repasses, ainda no ano passado. Além disso,
Arnaldo falou também sobre as perspectivas para o mercado geral, a falta de
lançamentos futuros, que preocupa o setor, e a queda constante na geração de
empregos, que não deve ser recuperada.
O Sinduscon
anunciou que o Governo Federal devia em torno de R$ 15 milhões para as
construtoras. Valor este que já foi superior. Como está a situação?
O Minha Casa Minha Vida é dividido em algumas
faixas. O Faixa 1 é praticamente uma obra pública. Ele tinha todo um programa
de desembolso, pagamentos, que até outubro do ano passado você recebia com 10
ou 15 dias, depois que faturava para o Governo Federal. Hoje, você leva 60
dias, 70 dias. Aqui no Estado você teve seis ou sete construtoras de porte
médio que pegaram um volume grande de obras, porque o giro era imediato. Fazia,
recebia, comprava. E esse ciclo foi quebrado. Em maio, foi a hora mais aguda,
com atrasos de 90 dias. De lá para cá, algumas coisas mudaram, mas, o pagamento
não voltou a ser como foi pactuado.
Quanto é a
dívida hoje?
Só em Natal, temos um giro em torno de R$ 12
milhões à R$ 15 milhões. Em todo o Estado, com Mossoró e outras cidades, vai
para perto dos R$ 30 milhões. Em 30 de junho, o Governo assegurou para a
direção da Cbic que iria colocar em dia até 30 de agosto e pediu um pouco de
paciência para o setor. Faltava um bom tempo ainda, mas, garantiram que
semanalmente iam passar recursos para ir matando o débito. No Brasil todo, a
dívida chega à 1,6 bilhão, em 30 de junho. O problema é que passaram um valor
muito pequeno e as empresas continuaram trabalhando e emitindo nota fiscal.
Nada mudou?
Nada. A insatisfação está muito grande. Em nível
nacional, tenho recebido diversas reclamações, porque não houve mudança de
postura. Hoje, estamos com serviços feitos em abril, maio e junho que não foram
pagos. Três notas fiscais emitidas e não liquidadas. E já fizemos a medição de
junho, com nota fiscal para ser emitida até o final do mês. O Governo propôs
alongar os pagamentos, pedindo 30 dias, para empresas que faturaram até R$ 48
milhões em 2014, que classificavam como pequeno porte. Com 45 dias para quem
faturou entre R$ 48 milhões e R$ 90 milhões, e 60 dias acima de R$ 90 milhões.
Teoricamente, em agosto teremos um pagamento assegurado, que foi a proposta do
Governo.
Vai ter novas
reuniões entre o setor e o Governo Federal?
O pessoal da Cbic é que está nessa luta, mas,
oficial até agora nada. Mas, tem que ter. O pior de tudo é que eles não
conseguiram fazer superávit, tão anunciando mais contingenciamento.
Contingenciamento do que? Ficamos nos perguntando.
Podemos falar em lucro para as empresas a partir
dos empreendimentos da Faixa 1?
É uma obra pública, só que com uma margem de
lucro bem reduzida, muito pequena, que se conseguia fazer por causa do giro. As
construtoras compravam, produzia e recebia. Nos casos das empresas de
Natal, temos que elogiar, houve um grande ganho de produtividade. Eles
trouxeram técnicas construtivas que permitiram com que fizessem mais rápido, à
um custo menor, para poder se adequar ao preço que o Governo Federal pagava.
Não sendo isso, não teríamos alguma margem. Por isso, que esse atraso, na hora
que você tem um dinheiro a receber, não consegue, e tem que se financiar, de
alguma forma, a sua planilha de custos já tem uma coisa que não existia, que
são os juros.
As obras foram
paralisadas? O Governo se manifestou sobre esta possibilidade?
Não. Do Governo nada. Houve paralisação em alguns
Estados porque as empresas quebraram, não conseguiram se financiar. Então, não
conseguiam mais colocar dinheiro na obra sem receber. Chegou à um colapso. Nós
tememos é que isto se acelere. No Estado, tivemos a da zona Norte, em Pajuçara.
Mas, houve em outros locais também. E aí você já tem uma quantidade grande de
demissão, muito daqueles avisos-prévios estão vencendo.
O impacto
maior foi as demissões?
Isso. No conjunto das cinco empresas aqui de
Natal, por exemplo, a queda foi torno de 30% à 40% de pessoal. Por exemplo, de
aproximadamente 1 mil profissionais hoje trabalhamos com 600. Mais ou menos que
rodaram, desde o início dos atrasos, em novembro.
Permanecendo
este cenário de atrasos e pouca margem de lucro. A tendência seria finalizar os
investimentos neste tipo de empreendimentos do MCMV?
Se não houver um reajuste nos preços, com
certeza. O próprio Governo já está anunciando que deverá, na fase 3 do
programa, contemplar um aumento entre 10% à 11%. Quer dizer, ele próprio
reconhece que teve inflação neste período. Embora eu ache que este percentual é
muito pequeno, porque da data que estes preços foram estabelecidos para hoje dá
mais de 20%. Esses preços são de 2012.
E a Fase 3 do
Minha Casa, Minha Vida, seria positiva para as construtoras?
A fase 3 ainda está sendo discutida e, em tese,
vai ser suspensa. Adiaram, disseram que vão lançar no final de agosto, mas, não
vão. O que eu acho bastante salutar. Se eu não estou pagando o que eu devo,
como é que vou contratar coisas novas? Com a Faixa 1, que possui processo
burocrático mais rápido, no RN, você tem sete construtoras, mas, as grandes
empresas de obras públicas e do setor imobiliário não fazem. Mas, mesmo que
quisessem fazer, iam encontrar dificuldades, porque eles sete investiram em
métodos construtivos e produtividade na Faixa 1, não querem fazer. Não vão
contratar sabendo que estão sofrendo agora. Então, eu que estou fora,
observando problemas, vou querer entrar? Lançar, o Governo pode lançar. Não vai
haver receptividade.
O que precisa
mudar para deixar o mercado do MCMV mais sustentável?
Primeiro o Governo Federal tem que honrar os
pagamentos, como era antes. O desafio era criar margem, que foi aceito e
realizado pela maioria das empresas. O Faixa 1 teve e tem uma importância muito
grande, porque temos um déficit de habitação social muito grande. Então, seria
muito importante que continuasse, mas, com regras claras. O Governo não deveria
abandonar ou arroxar o programa, até porque ele é a cara deste Governo, a
cara boa deste Governo.
As obras ainda
estão sendo tocadas, mesmo com redução de pessoal. Já há um atraso de entrega
oficial?
Vai mudar, com toda a certeza. O cronograma era
para novembro. É impossível. Mas, ainda não foi discutido com a Caixa, até
porque estamos aguardando esta situação dos pagamentos. Claro que, uma vez
restabelecido o fluxo normal, as empresas poderão acelerar o ritmo e contratar
mais operários, gerando algum emprego a mais. A não ser que digam para
permanecer no ritmo atual.
Sobre o
mercado geral, qual o cenário atual de empregos? A tendência é fechar com saldo
negativo?
É. Dificilmente isso será revertido. A tendência
dos últimos meses mostra isso claramente. Isto permeia a atividade econômica
como um todo. Em janeiro, tínhamos 5.932 e hoje temos 4.432.
A causa destas
demissões seria apenas a retração do consumo e da demanda das famílias e
empresas?
As causas dessas demissões um pouco são os atrasos
de repasses do Governo Federal para o MCMV, assim como nas obras públicas. Até
a Copa mantivemos um ritmo pequeno de perda de empregos. O acentuamento foi
depois, que ficou muito difícil. O ajuste fiscal talvez seja a causa disso.
Mas, não podemos olhar pontualmente. Quando se fala em ajuste fiscal, ele é
necessário. O que discordo é da forma como ele está sendo feito. O Governo
deveria cuidar de seus gastos, da sua máquina. E não dos gastos dos
investimentos.
Qual a maior
preocupação do setor?
Eu não sou economista, mas, a subida dos juros do
jeito que está e a baixa arrecadação faz com que a dívida pública suba em
relação ao PIB, o que é muito ruim. Mas, a subida dos juros termina sendo
necessário, mesmo sendo altamente danosa, porque nós temos que controlar um
dragão, que é a inflação. Temos que debelar este custo inflacionário, custe o
que custar. Não podemos abrir mão dessa relativa estabilidade, de saber que a
variação dos preços de um mês para o outro é palatável. Estamos tendo uma
inflação absurda de quase um 1% ao mês, que é muito alta, mas nós tínhamos de
12% à 15% ao mês antigamente. Temos que manter a estabilidade da nossa moeda.
Esse, para mim, é o imposto mais pernicioso que poderíamos ter na nossa
população mais carente. O que é ruim para a economia é a incerteza, por isso, o
Governo tem que dizer o que realmente quer, faça escolhas e cumpra.
Qual a
perspectiva do setor, em termo de vendas e lançamentos?
Não estamos vislumbrando um futuro claro que
permita com que nós possamos fazer lançamentos e correr riscos no futuro. Por
outro lado, a nossa venda continua robusta, menor que o ano passado, claro,
mas, mostrando que existe um mercado. O nosso IVV, que significa em quanto
tempo os imóveis disponíveis serão zerados, quando temos um IVV de 4% são 25
meses. Se nós levamos 48 meses para aprovar um projeto, construir e entregar,
podemos ver que o estoque está mais que adequado à realidade. Mas, os
indicadores mostram um futuro não promissor, porque, quando estas obras ficarem
prontas, você vai ter mais desemprego, menor oferta de imóveis, preços mais
altos.
A FGV publicou
pesquisa recente mostrando que a confiança das companhias que trabalham com
obras do MCMV e do PAC caiu 25%. O recuo foi de 21,7% para quem está fora desse
grupo. Isto reflete no RN? Existe o mesmo sentimento?
Completamente. Estamos em uma incerteza. Não
sabemos se vamos receber. Essa insegurança do que vem pela frente é a coisa
mais danosa que pode acontecer. E o consumidor fica preocupado. Como um todo,
ele fica preocupado com a manutenção do emprego dele, que as coisas estão mais
difíceis. Que houve aumentos de preços, que eram necessários, como o da
energia, e que afeta diretamente o bolso dele. Então, de uma forma geral é um
arrocho nacional.
Quem
Arnaldo Gaspar Júnior tem 53 anos e é presidente
do Sindicado da Indústria da Construção Civil (Sinduscon/RN) há cinco anos. Ele
foi reeleito em 2014 e tem mais três anos de gestão pela frente. Engenheiro
Civil formado pela UERJ, também é proprietário da Construtora A.Gaspar SA.
Tribuna do Norte