À
frente da Federação da Câmara de Dirigentes Lojistas do Rio Grande do Norte há
quatro meses, o empresário Afrânio Miranda analisa a retração nas vendas e
consumo, mas descarta a situação de crise econômica e alerta para a necessidade
das empresas se adequarem. O setor deve registrar queda no faturamento de 5% ao
ano. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o empresário analisou situações de
inadimplência, baixa no consumo e no fluxo de pessoas no comércio, além de
defender campanhas de redução de compras eletrônicas para incentivar o
recolhimento de impostos e geração de emprego local, como forma de enfrentar o
momento de retração da economia. “Por mês, R$ 40 milhões em impostos deixam de
ser recolhidos e revertidos em investimentos no estado”, observa. Eis a
entrevista.Humberto Sales
Afrânio Miranda, presidente da Federação da Câmara de Dirigentes Lojistas do Rio Grande do Norte (FCDL RN)
Nesta
conjuntura de crise econômica, com crescimento de inflação, alta dos juros,
quais as perspectiva para o setor de comércio e serviços este ano, na avaliação
do senhor?
Eu não acredito que estamos numa crise.
Não?
Não. Eu diria que estamos numa situação em que
cada empresa precisa fazer ajustes porque está faturando menos. Crise é quando
não podemos resolver. A população não acredita mais no governo, por essa
instabilidade toda, pela falta de segurança jurídica, por não conseguir
dar a qualidade que o consumidor espera. Então, o consumidor tende a se
resguardar e o comércio varejista e serviços deixa de vender mais. e precisa
adequar os custos.
O senhor
acredita que a retração é reversível?
Acredito que pode ser revertida e poderemos voltar
a crescer a partir do segundo semestre e retomar a normalidade.
Com base em
que esta retomada?
Na reação que o comércio vem apresentando já nos
meses de março e abril. Esperamos que no decorrer do ano, com as atividades de
consumo voltando, com escolas, fardamento, material, uma coisa puxa a outra. E
não há uma crise com a inflação nos patamares da década de 1980, quando se
atingiu 90% ao mês. hoje, a inflação deve chegar a 8% ou 10% ao ano.
E a inflação
nesse patamar não afeta o setor e reflete em freio no consumo?
Reflete.
Como medidas
de contenção desta inflação, há o aumento das taxas básicas de juros. Qual o
impacto disso no consumo?
Com certeza também freia, porque quem vai tomar
dinheiro emprestado vai ter mais cautela porque terá juros mais alto. Fora que
os bancos passam a ser mais restritivos, rigorosos nessa concessão de crédito.
Todos os setores sentem isso. A fábrica deixa de produzir porque o comércio não
vende, os serviços também deixam de comprar algum insumo ou incremento para se
manter prestando o serviço. Mas acontece que ninguém está habituado a redução
no faturamento. Mas não há crise e, sim, um momento de adequação. Voltando a
crescer, volta-se a contratar, a normalidade.
O setor do
comércio no Rio Grande do Norte registra queda no faturamento em quanto?
Eu acredito que deve ficar na casa de 3% a 5% ao
ano, a queda no faturamento do setor. se considerar a inflação, deve ficar em
torno de 10 a 12%, com base em dados da CNC e da CNDL.
Quais os
setores mais afetados? E os que devem sentir menor impacto?
Todos os setores estão afetados. Acredito que o
setor de informática, tecnologia, eletroeletrônicos que podem aguardar, devem
sofrer mais com esta cautela do consumidor. Já os que comercializam bens e
serviços ditos de primeira necessidade, como os supermercados, vestuário e
comércio, sintam um pouco menos esta retração porque não se deixa de consumir.
Dados do SPC
Brasil mostram que a recuperação de crédito fecha o primeiro trimestre em queda
de 2,30%, puxados pela desaceleração da economia, inflação e alta nas taxas de
juros. Como está a inadimplência e o endividamento do setor no Estado?
Não temos ainda como mensurar esta inadimplência
em percentual. Mas é certo cresceu e há uma dificuldade de muitas pessoas em
quitar as dívidas, algumas porque ficaram desempregadas. Mas acredito que esta
é uma situação temporária, que assim que consigam se recolocar no mercado,
novos postos de trabalho, estes índices melhorarão. É uma cadeia quando
comércio e serviços sentem isso, que são os primeiros, a indústria é afetada,
ficar com produto parado, há demissões em massa como já vemos, principalmente
no Sul e Sudeste do país. Aqui no Estado, já são mais de 5 mil vagas de emprego
fechadas, nos três primeiros meses. E, nesse momento de retração da economia,
estes ajustes também passam pelo corte de pessoal.
O fluxo de
consumidores no varejo caiu 8% no último mês, em todo o país, segundo
dados da SBVC. Aqui como se comportou, também se percebe um esvaziamento nas
lojas e comércio de rua?
Sim, geralmente seguimos esta média. E dependendo
da localização, a redução varia de 10% a 15%. Se não há dinheiro sobrando na
praça e nem expectativa, há uma cautela na hora de gastar pela instabilidade do
Brasil. Há uma instabilidade grande para os empresários com mudanças na
legislação, seja com esta questão da legislação dos atestado, em que
agora o empresário terá que, para tapar o rombo da previdência, arcar com em
vez de 15 dias de licenças com o custo de até 30 dias desta licença. A gente já
recolhe o INSS, o colaborador também. Ou ainda, com a mudança na lei da
desoneração da folha, que para alguns setores pode representar um aumento de
até 150% em que era cobrado.
Qual o impacto
da mudança na lei da desoneração para o setor do comércio?
Para algumas atividades do comércio não teve
impacto negativo. Mas para a indústria foi um tiro mortal. Mas imagine para
quem tinha um planejamento anual dos custos e, de uma hora para outra, em vez
de pagar 2% do seu faturamento vai pagar 4,5%. Outro fator que prejudica o
comércio são os feriados que, segundo dados da CNC, só este ano deverão trazer
prejuízos na ordem de R$ 5 bilhões em todo o país.
Quais as
projeções para as vendas do dia das mães?
A pesquisa com todos os números e projeções será
divulgada nesta terça-feira. O que podemos antecipar é que esperamos ter um
desempenho semelhante ao de 2014, o que já será positivo. O valor do ticket
médio de compra também não deverá sofrer redução, já que é um momento em que os
filhos investem no presente, mas teremos menos pessoas comprando este ano.
Para reverter
esta retração do consumo, quais as estratégias defendidas pela FCDL?
Uma das bandeiras da FCDL é enfrentar a
concorrência do comércio eletrônica. Estamos com uma campanha educativa que
pretendemos levar para o Governo do Estado, que é de incentivar a redução das
compras por internet, apesar de as vezes o preço ser mais vantajoso em alguns
casos. Quando se compra fora, é emprego que deixa de ser gerado aqui e os
impostos não vem para cá, mas ficam para o estado de origem do produto. O
Estado perde cerca de R$ 40 milhões mensais em impostos por compras efetuadas
fora do Estado. Se todo este recurso tivesse ficado aqui teria mais dinheiro
para investimentos em diversas áreas. A legislação de tributação
eletrônica é perversa para nós., já que cada estado atua com um benefício
fiscal diferente. Um estudo da Fiern, o programa MaisRN, apontou que temos o
menor benefício fiscal do país. Há uma lei que altera os percentuais de
recolhimento de compras eletrônicas, de forma escalonada para que até 2019,
100% do imposto seja recolhido no destino. Mas mesmo com a lei, há uma perda na
geração de emprego. Paralelo a isso, estamos com uma proposta para incentivar
que os pregões sejam presenciais e não eletrônicos, para favorecer as empresas
locais.
Estas são as
duas principais bandeiras da FCDL?
Sim. E estamos implantando junto com as 29 CDL,
nos municípios em que estão localizadas, projeto de câmeras de monitoramento
eletrônico e instalação de um mini-Ciosp à exemplo do que já fizemos em Apodi,
um investimento de R$ 80 mil, por meio de parceria com empresários, comércio,
bancos e prefeitura, em 7 câmeras que j[a refletem em redução da criminalidade.
Tribuna do Norte